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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Íncubus e Súcubus

por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 21/5/2004 17:09:26

Os roteiristas responsáveis pelos exorcismos televisionados da Organização Universal deveriam ler um pouco mais de mitologia da Idade Média para enriquecer os diálogos entre pastores e demônios.
Demônio da Universal só sai dos quintos para atrapalhar vida financeira do crente que atrasou o dízimo ou para botar uma amante gostosona no caminho do marido da fiel inadimplente com a Fogueira Santa.

Não sei como Astaroth, Leviatã ou Asmodeu ainda não moveram um processo contra a Rede Record por calúnia, injúria e danos morais, reclamando que eles não têm absolutamente nada a ver com aqueles imbecis de cara eletronicamente escondida, que usam aquela voz do Pato Donald para repetir sempre as mesmas besteiras.

Mas não é destas primadonas infernais que eu quero falar, mas de dois interessantes grupos de coadjuvantes das hostes caídas: os Íncubus e Súcubus.

Íncubus e Súcubus são demônios especializados na sedução sexual, visitando o leito das vítimas durante a noite e transando com elas.
Os Íncubus são as entidades masculinas e os Súcubus as femininas.
Só digo que se os Súcubus são mesmo aquelas gostosonas nuas que aparecem nas representações artísticas, quem é atacado por eles de vítima não tem nada.

Mas são personagens legais, um resumo de como a mitologia de uma sociedade pode absorver e traduzir os efeitos da repressão sexual.

Íncubus e Súcubus tinham uma predileção por quem não deveria ter predileção por eles, como monges, freiras e mulheres solteiras e solitárias, que segundo os relatos eram vítimas tão freqüentes destas criaturas que já haviam desistido de trancar as janelas.

As incursões de Íncubus e Súcubus eram denunciadas pelas poluções noturnas nos homens e pelos sonhos eróticos nas mulheres. No caso destas, por vezes o incubus se empolgava e deixava a coitada em estado interessante, com uma barriga para explicar.
Nestes casos as mulheres tinham uma escolha nada confortável. Confessar que foi o namorado e ser renegada por todos como vadia, inclusive pelo namorado ou contar que foi estuprada por um Incubus e torcer para o idiota do pai acreditar e o desgraçado do padre não acusa-la de ser uma bruxa.

O mago Merlim, mentor do rei Artur, segundo a lenda, era fruto de uma destas uniões de uma mulher humana com um Incubus.

Com o homem, sem neuras. De certa forma o Súcubus era a mulher ideal. Bonita, gostosa, aceitava uma noite de amor sem compromisso e não ficava esperando você ligar no dia seguinte. Mesmo porque o telefone ainda não tinha sido inventado.
Além disto, o Súcubus não engravidava, não tinha TPM e não te levava para conhecer a família dele.

Imaginem um pobre camponês medieval chegando em casa depois da farra, de madrugada, bêbado, cheirando a perfume barato (que devia ser forte pra caramba, já que a turma da época não tomava banho) e dando de cara com a mulher, já pronta para meter o cinto de castidade nas partes baixas dele. O pobre camponês faz uma cara de assustado e diz: - Mulher, você não sabe o que aconteceu, fui atacado por um Súcubus.
Deve ter funcionado pelo menos uma vez, pois alguém acreditou e passou esta história para frente.

Íncubus e Súcubus aparentemente estão mais ligados às antigas mitologias druídicas celtas do que ao cristianismo, tendo sido promovidos a condição de demônios por um destes sincretismos que a igreja não reconhece, mas também não nega.
A distância dos Íncubus e Súcubus dos papéis usuais atribuídos aos demônios na mitologia cristã fica clara no fato de o objetivo destes seres não ser levar os homens e mulheres à perdição através do pecado da luxúria, mas drenar deles suas energias vitais através do ato sexual. Algo mais próximo do vampirismo do que da religiosidade clássica.

Como criaturas sobrenaturais detestam céticos e nunca se manifestam para eles, é muito improvável que um Súcubus com a cara da Gisele Bundchen e o corpo da Juliana Paes apareça na minha cama à noite, nua, ávida por sexo selvagem e sem compromisso.

Vou me converter.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Voltaire

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 21/3/2003 21:32:29

Se Deus existir e me concedesse como pedido a possibilidade de tomar uns chopes com quem eu quisesse, vivo ou morto, de qualquer época, eu não pensaria duas vezes.

- Quero tomar uns chopes com o Voltaire.

Voltaire era o máximo, bater um papo com ele deve ser o equivalente hoje a dividir uma mesa com o Millôr Fernandes – com a vantagem de que o velho Jean Marie não era brizolista.

Fico imaginando como seria o papo em torna da mesa:

Acauan - E aí Jean-Marie, como vão as coisas?

Voltaire – É... Tô meio preocupado, sabe como é, o Papa não gostou nem um pouco da brincadeirinha que eu fiz com ele no Cândido...

Acauan – Ô Jean, você preocupado com o Papa?

Voltaire – Qual é ô meu? Eu sou filósofo mas não sou bobo, você deve saber muito bem do que eu vivo..., se o Papa cisma de me botar na lista negra acabou minha penetração junto à “sociedade”... E aí eu vou viver do que? Tenho contas para pagar.

Acauan – E como tá indo o Rousseau?

Voltaire – Ele não fala comigo desde que leu “O Ingênuo”, aquela história do Hurão, sabe como é esta turma da esquerda, totalmente liberais até que alguém dê uma alfinetada neles, aí é “magoei”...

Acauan – Mas Voltaire, me diz aqui uma coisa...

Voltaire – Pera aí, antes de continuar esta conversa, quem é você?

Acauan – Sou Acauan dos Tupis

Voltaire – E que lugar é este?

Acauan – Aqui é São Caetano do Sul, a terra do Azulão.

Voltaire – Paris é melhor.

Acauan – Também acho, mas muita gente aqui discordaria.

Voltaire – Que bebida é esta?


Acauan – Chamamos de chope, “bière” em francês, eu acho...

Voltaire – Gostei.

Acauan – Deve ter gostado mesmo, já tomou uma dúzia...

Voltaire – E esta garçonete, como é mesmo o nome dela?

Acauan – Jean-Marie, ela é casada. Dá um tempo meu!