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segunda-feira, 7 de março de 2011

Os Espíritos da Mata

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 07/03/2011 às 13:56

Antes do Código, os Homens e os Espíritos da Mata viviam em guerra.
Os Homens, feitos de matéria pesada, caminhavam sobre a terra e podiam viver sob a luz do dia.
Os Espíritos da Mata eram feitos de matéria leve. À noite os Espíritos da Mata vagavam entre o chão e as copas das árvores mais altas.
Durante o dia os Espíritos da Mata repousavam no corpo dos animais da floresta.

Como eram feitos de matéria leve, os Espíritos da Mata não podiam ferir os Homens. Os Homens não podiam matar os Espíritos da Mata, pois eles não morrem.

Os Homens combatiam os Espíritos da Mata durante o dia, matando os animais da floresta e abandonando suas carcaças ao sol, para que os Espíritos da Mata ficassem presos nos corpos mortos até que fossem totalmente consumidos.
Quando o sol desaparecia, os Espíritos da Mata deixavam os corpos dos animais, rumavam para o lugar onde os Homens dormiam, se misturavam aos humores e fumos noturnos que os homens respiravam e os envenenavam com a febre que matava ou enfraquecia os Homens.

A guerra durava gerações.
Um dia, jovens da tribo se revoltaram contra os anciãos que comandavam os Homens. Propunham que para vencer os Espíritos da Mata deviam entrar na floresta, matar todos os animais e queimar todas as árvores, assim os Espíritos da Mata não teriam onde se abrigar da luz do dia e sem a copa das árvores altas para lhes servir de teto se perderiam entre as estrelas.

O mais forte dos jovens rebeldes dizia que os Espíritos da Mata eram Aqueles que Não Morrem. Como os Homens morrem, era preciso queimar a floresta e matar os animais para derrotar os Espíritos da Mata, antes que eles exterminassem os Homens com a febre.

Temendo os jovens, os anciãos procuraram Mayra.
Desde o princípio Mayra dizia aos anciãos que a guerra entre os Homens e os Espíritos da Mata devia terminar.
Os anciãos morriam e os jovens se tornavam anciãos sem que o conselho de Mayra fosse acatado.

Mayra ouviu os anciãos e perguntou a eles se os Homens queriam dormir a noite sem temer o ataque dos Espíritos da Mata.
Os anciãos entenderam que Mayra queria terminar a guerra e responderam que fariam o que Mayra lhes dissesse para fazer.

Mayra disse aos anciãos que demarcassem na floresta um grande círculo, que derrubassem as árvores dentro do círculo, mas nenhuma fora dela, que marcassem o ponto onde o sol nasce e o ponto onde o sol se põe e fizessem uma linha que unisse os dois pontos. Que dividissem o círculo em oito partes iguais e que, partindo do centro do círculo, das linhas de cada uma das oito partes traçassem trilhas na floresta. Nestas trilhas derrubariam as árvores para abrir um caminho no qual passasse dois Homens lado a lado. E quando o círculo e as trilhas estivessem prontos, que erguessem ocas alinhadas ao longo do círculo, habitassem as ocas e deixassem a floresta para ser habitada pelos Espíritos da Mata.

Os anciãos fizeram conforme as palavras de Mayra.
Os jovens derrubaram as árvores para fazer o círculo e a trilha, acreditando estar fazendo a guerra contra os Espíritos da Mata.

Quando o círculo, as trilhas e as ocas ficaram prontas, Mayra procurou os Espíritos da Mata.
Os Espíritos da Mata não falavam a língua dos Homens, mas Mayra falava a língua deles.
Por toda a noite Mayra e os Espíritos da Mata conversaram sobre a guerra.
Quando amanheceu, os Espíritos da Mata foram para o repouso e Mayra voltou e reuniu os anciãos na oca maior.

Mayra disse aos anciãos que a guerra entre os Homens e os Espíritos da Mata estava terminada.
Durante o dia os Homens caminhariam sobre a terra e sob a luz. Matariam apenas os animais que precisassem para comer e comeriam toda a carne de cada animal que matassem.
À noite a floresta pertenceria aos Espíritos da Mata e os Homens se manteriam dentro do círculo e das trilhas.
Mesmo nas noites sem lua, os Espíritos da Mata não invadiriam o círculo nem qualquer das trilhas onde os Homens dormissem ou caminhassem.

Mayra também advertiu os anciãos. Disse que instruíssem os Homens para cumprirem o acordo, caso contrário os Espíritos da Mata caminhariam sobre a terra, como os Homens.

Os anciãos reuniram os Homens e disseram que a guerra com os Espíritos da Mata havia terminado, mas por orgulho assumiram a honra para si próprios, não contaram que fora Mayra quem fez o acordo que terminou a guerra.

Então os anciãos disseram aos jovens que os obedecessem ou sua magia, que fora poderosa para silenciar os Espíritos da Mata, se voltaria contra os desobedientes.
Os jovens temeram a ameaça dos anciãos e obedeceram quando ordenaram que só matassem animais para comer, comessem os que matassem e só caminhassem na mata à noite pelas trilhas, omitindo que fora Mayra quem lhes ensinara a fazer assim.

Um dia, o mais forte dos jovens, aquele que queria queimar a floresta para derrotar os Espíritos da Mata, reuniu outros jovens e os convenceu que os Espíritos da Mata cederam por medo de suas ameaças e não pela magia dos anciãos.
Para provar o que dizia, esperou uma noite sem lua, reuniu os jovens que o seguiam e caminhou com eles por uma das trilhas. No coração da mata, abandonou a trilha e adentrou sozinho na floresta, onde atirou ao chão a carcaça de animal que matara e não comera, em desafio aos Espíritos da Mata.

Os Espíritos da Mata viram que os Homens traíram o acordo e sabiam que os anciãos traíram Mayra. Porém deixaram o jovem rebelde entrar e sair da floresta sem molestá-lo, pois os Espíritos da Mata tinham seus ardis.

Quando o jovem rebelde voltou ileso do coração da mata, os demais concordaram que não mais obedeceriam aos anciãos, que eram fracos e mentirosos. Entrariam no grande círculo, matariam os anciãos e os fortes comandariam os Homens.

Os Espíritos da Mata sentiram as intenções dos jovens e os seguiram. Como os Homens traíram o acordo, podiam agora entrar nas trilhas e no grande círculo. Quando chegasse a hora, caminhariam sobre a terra como os Homens e os matariam. Não mais com os humores e fumos causadores da febre, mas com a força da matéria pesada.

Quando os jovens se aproximaram do grande círculo, os anciãos os esperavam para puni-los por sua desobediência, sem imaginar que os jovens pretendiam matá-los.

Só Mayra viu a cena completa, pois podia ver o que os Homens não viam.
Mayra viu que os anciãos confiavam que os jovens ainda temiam a magia deles, viu que os jovens queriam matar os anciãos para comandar os Homens e viu que os Espíritos da Mata seguiam os jovens para – depois que os Homens se matassem entre si – matar aqueles que sobrassem.

Quando os anciãos, os jovens e os Espíritos da Mata se encontraram na entrada do grande círculo, Mayra surgiu entre eles.

Todos temeram Mayra, pois cada um, a seu modo, havia traído o acordo.

Por um momento os anciãos, os jovens e os Espíritos da Mata ficaram imóveis sob o olhar de Mayra.
Então, num movimento súbito e sem dizer palavra, o mais forte dos jovens ergueu sua clava e golpeou pesadamente a cabeça de Mayra.
O jovem soltou um grito selvagem enquanto o corpo de Mayra caía ao chão, com o crânio fendido.

Os Espíritos da Mata circundaram o corpo de Mayra e viram nele que era chegado seu tempo de caminhar sobre a terra e destruir os Homens.
E da escuridão que emanou da ausência de Mayra, os Espíritos da Mata assumiram a forma dos medos dos Homens, pisaram o chão da terra pela primeira vez e se fizeram Anhangá.

Quando os anciãos viram Anhangá se encheram de medo e tentaram fugir, mas os jovens tomados de fúria não viram Anhangá e atacaram os anciãos para matá-los.

Anhangá esperou que os jovens matassem os anciãos.

Quando o último ancião foi golpeado, os jovens soltaram gritos de vitória, mas quando a fúria passou Anhangá se mostrou a eles e a fúria foi substituída pelo terror.
Os jovens largaram suas armas e tentaram fugir, mas Anhangá que assumia a forma dos medos dos Homens os paralisou e dançou em torno deles urrando.

Anhangá encarou o mais forte dos jovens, que não ousou enfrentar seus olhos vermelhos. O jovem mais forte chorou e implorou, e quanto mais chorava e implorava mais terror Anhangá lhe infringia, até que o jovem caiu de joelhos e Anhangá o ergueu sobre sua cabeça, despedaçou seu corpo e lançou os pedaços sobre os demais jovens, que choravam apavorados diante de Anhangá.

Exceto um.
Um jovem que não se unira aos rebeldes, não conspirou contra os anciãos e não violou o acordo com Mayra.
Anhangá sentiu o cheiro do jovem. Seu cheiro não emanava medo como o dos demais.
Anhangá se pôs diante do destemido e o fitou nos olhos, mas o jovem enfrentou seu olhar. Anhangá urrou e dançou, mas o jovem permaneceu firme e sem medo, mesmo Anhangá assumindo todas as formas de todos os medos dos Homens.

Anhangá decidiu deixar aquele jovem e matar todos os outros Homens. Anhangá sabia que os Homens temiam a solidão e quando fosse o último dos Homens o jovem temeria Anhangá, Anhangá o mataria e os Espíritos da Mata voltariam a pairar sobre o chão e sob a copa das árvores, sem que ninguém mais os ameaçasse.

Anhangá então começou a matar os Homens, que um por um, paralisados pelo medo, eram despedaçados pelas garras dele.
E quando pareceu que os Homens deixariam de caminhar sobre a terra para sempre, Anhangá parou de matá-los e sem motivo aparente recuou para onde estava o corpo de Mayra, até estancar imóvel e silencioso diante dele.

O jovem que enfrentara o olhar do Anhangá repetiu o feito e viu que Anhangá estava com medo. O jovem viu o medo nos olhos do Anhangá, mas não entendia, pois os anciãos ensinaram que os Espíritos da Mata não sentiam medo, porque não morriam.

Por instantes o silêncio engoliu a mata.
E então veio o estrondo de mil trovões, que não soavam das nuvens do céu, mas do crânio fendido de Mayra.
A escuridão da noite penetrou o crânio de Mayra e o mundo dos Homens e o mundo dos Espíritos da Mata foi tragado para dentro do crânio e depois cuspido para fora dele com violência.

E do crânio de Mayra, entre raios de tempestades surgiu Tupã.

Tupã ordenou ao Anhangá que se retirasse do grande circulo.
Anhangá obedeceu.

Tupã falou aos Espíritos da Mata.
Disse que os Espíritos da Mata retornariam à matéria leve e não mais caminhariam sobre a terra, exceto nas noites sem lua, ao longo das trilhas da mata, pois como os Homens traíram o acordo, perderam o direito à proteção das trilhas, que pertenceriam a Anhangá, que poderia atacar os Homens que violassem a floresta.
Tupã proibiu Anhangá e os Espíritos da Mata de invadir o grande círculo.

Tupã falou aos Homens.
Disse que os Homens caminhariam sobre a terra e viveriam sob a luz do dia, os Espíritos da Mata pairariam entre o chão e a copa das árvores à noite, repousariam no corpo dos animais durante o dia e de sobre a copa das árvores altas, onde o gavião voa, no dia e na noite, Tupã vigia a todos.

Tupã falou ao jovem que fitou a face de Anhangá e perguntou seu nome.

- Sumé, respondeu o jovem.

Tupã leu a alma de Sumé e viu que naquela alma as Antigas Virtudes escreveram o Código.

Tupã ordenou aos Espíritos da Mata que retornassem à floresta.
Depois ordenou aos Homens que enterrassem seus mortos e cumprissem o acordo que fizeram com Mayra.

Tupã disse aos Homens que sempre que olhassem a floresta à noite, os Espíritos da Mata estariam olhando para eles. Os Homens não os verão, mas saberão que olhos que não vêem os observam.
Tupã decretou que a mata e a noite seriam os limites e fronteiras do Homem.
Dentro do grande círculo da taba o Homem conheceria e dominaria a natureza.
Na mata escura os elementos e o desconhecido reinariam.
Sobre a taba iluminada dos homens e sobre a mata escura Tupã vigia do céu, que se sobrepõe ao mundo dos Homens e ao mundo dos Espíritos da Mata, os reconhece e os une em um plano distante que governa a luz e as trevas.

Quando Tupã se calou o sol nasceu.
Sob a luz do dia, os corpos despedaçados lembraram os Homens dos horrores da noite e os Homens temeram.

Sumé olhou demoradamente um gavião no céu, depois falou aos Homens e disse que não temessem.
- O forte defenderá o fraco e lutará pelos que não podem lutar.
- Juntos, caminharemos sobre a terra e deixaremos nela nossa marca e o brilho de nossas pegadas ofuscará o dia e expulsará a noite.

Os Homens ouviram Sumé.

Antes de adormecerem nos corpos dos animais da floresta, de fora do grande círculo os Espíritos da Mata também ouviram.
E compreenderam.

Como manda o Código.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

De Novo o Mosteiro de São Bento

Publicado originalmente em 24 Fev 2006, 16:40

Passei em frente ao Mosteiro ontem e parei para ler um daqueles tótens com informações sobre o local, possivelmente para turistas e que por ser para turistas nunca parei para ler.
Mas foi legal, pois o tótem contava a história do Mosteiro, destacando que o conjunto foi construído no mesmo local onde ficava a aldeia do cacique Tibiriçá, que teve papel preponderante na fundação da cidade de São Paulo e sobre quem gosto de pensar como um possível ancestral, embora, claro, não tenha a mais remota evidência disto.
Ajudou a explicar minha simpatia pelo Mosteiro.


24 Fev 2006, 16:55

E só para constar, não voltei ao Mosteiro para encher o saco do jovem monge, como havia deixado pendente no fim do texto anterior, mas voltei para completar minhas observações.

Estava certo de que se os pedreiros livres deixaram suas assinaturas na Basílica, certamente deviam tê-la registrado no ponto culminante da Igreja que é o altar-mór.
Olhos atentos, busco em cada ponto onde esta marca poderia estar, num lugar visível a todos certamente, talvez nos vitrais ou no grande crucifixo de madeira que paira sobre o altar e... bingo.
Aos pés da imagem de Cristo no crucifixo há um entalhe ou marca muito sutil e de contornos poucos claros que lembram o suficiente o esquadro e o compasso.
Não foi fácil de perceber nem procurando com atenção, o que indica que foi colocado lá para ser reconhecido apenas por quem interessa.
Que obviamente não sou eu.

O Mosteiro de São Bento

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 2/3/2004 18:50:49





Domingo passado, 29 de Fevereiro de 2004, levei meus filhos para assistir à missa no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.
Quer dizer, na verdade levei meus filhos para assistir ao magnífico recital de órgão e apresentação de canto gregoriano que é a missa dominical das dez.

O Mosteiro é o máximo, um dos mais belos, tradicionais e acolhedores locais religiosos de São Paulo.

Cheguei atrasado. A Basílica de Nossa Senhora da Assunção (nome oficial da igreja do Mosteiro) estava lotada.

Para minha apreensão o grande órgão de seis mil tubos estava silencioso.
A explicação veio dos paramentos roxos do celebrante e do altar-mór, a cor litúrgica do tempo da Quaresma, o que significava necas de pitibiribas de sólos de órgão nas igrejas católicas durante os quarenta dias deste período, exceto no domingo Laetare (o quarto da Quaresma).

Com o órgão calado e longe demais dos monges para ouvir o canto, dediquei-me a estudar a arquitetura interna da Igreja, cujo estilo ou mistura deles sempre me confundiu.
Não sou nenhum especialista em história da arte, mas pelo menos aprendi a reconhecer uma catedral gótica quando vejo uma.

Dentro da basílica a única coisa que reconheço é que era completamente ignorante para classificá-la.

O grande crucifixo sobre o altar-mór, as esculturas de santos e os altares laterais são barrocos, o teto com suas pinturas poderia ser chamado de neo-renascentista e eu nem arrisquei um palpite para as colunas, arcos e abóbadas da nave central.

Mas lá estava eu, admirando o conjunto lá do fim da fila, quase embaixo do portal de madeira de entrada, quando olho para cima e tenho uma visão interessante.
As pinturas das abóbadas da entrada não representavam elementos católicos tradicionais e sim um zodíaco completo ao centro, um elefante e um golfinho à esquerda, cujas inscrições em latim indicam que representam o elemento terra e o elemento água. Não fui conferir, mas certamente à direita do zodíaco duas outras figuras estão a representar o fogo e o ar.

Nunca tinha reparado naquilo nas muitas vezes que visitei o local, mas também nunca fiquei parado embaixo da porta de entrada, posição que me permitiu perceber mais dois detalhes. As abóbadas onde estavam o zodíaco e os quatro elementos estavam pintadas de azul escuro, representando um brilhante céu estrelado, igualzinho a um teto que eu já havia visto em algum lugar.
No teto sobre o centro da nave um círculo com as letras “A” e “M” sobrepostas também me pareceram muito familiares.

Não demorei muito para lembrar.

O céu estrelado é a cobertura das Lojas Maçônicas e aquelas duas letras, como pintadas, eram parecidas demais com esquadros e compassos entrecruzados do que seria esperado numa coincidência.

Motivos maçônicos ostentados no mais venerando mosteiro do país era motivo para esclarecimentos.
Terminada a missa (que acreditem ou não teve até um sermão muito legalzinho do celebrante, cheio de alfinetadas nas igrejas que vendiam solução mística para os fracassos terrenos), estava à procura de um monge que esclarecesse minhas dúvidas.

Antes, é claro, entrei na fila e comprei o famoso bolo dos monges, feito pelos próprios e vendido no mosteiro. A reputação da iguaria já a tornou mais uma atração turístico-gastronômica de São Paulo (vocês queriam o que? Aqui não tem praia).

Feita a compra, abordo um jovem monge parado no corredor, possivelmente escalado para atender chatos como eu, já que não devo ter sido o primeiro a sair de lá com vontade de fazer perguntas.

Perguntei primeiro sobre o estilo arquitetônico do mosteiro e o religioso, muito simpático e atencioso, me explicou que era chamado estilo beuronense, criado na Abadia de Beuron, Alemanha, daí o nome.

Satisfeito com a competência e paciência do anfitrião, pergunto pelo zodíaco e a representação dos quatros elementos.
A resposta do monge, certamente a versão oficial da casa, é que aquelas figuras estão lá para representar que Cristo é o senhor dos céus (zodíaco) e da natureza (os quatro elementos), com uma observação complementar de que as pinturas não tinham qualquer significado esotérico ou correlação com símbolos da Nova Era.

Não sei se ele me achou com cara de quem curte Nova Era, espero que não, mas fui em frente e perguntei das letras “A” e “M”, entrecruzadas naquele formato característico.

O monge, que parecia saber o significado de cada um dos milhares de símbolos gravados na igreja, nem pensou para responder que se tratava das iniciais de Ave Maria, bastante compreensível sendo Nossa Senhora da Assunção quem dava nome à basílica.

Percebendo que talvez o beneditino já não estivesse gostando muito do rumo que eu dava à conversa, comentei à queima roupa que a maneira como as letras estavam dispostas lembravam muito o esquadro e o compasso maçônicos.

De novo a negativa pronta e firme, firme o suficiente por sinal. Resolvi parar por ali (por enquanto) e me despedi do monge que cumprimentou meu filho com um daqueles apertos de mão cheio de coreografias que gente da minha idade não conhece e que eu pensei que o claustro beneditino não ensinasse.

Apesar disto meu professor de beneditinologia não me convenceu. Posso não entender bulhufas de estilo beuronense, mas se o elefante e o golfinho tem alguma coisa a ver com Cristo eu sou o general Custer.

Depois do Mosteiro, levei meus filhos ao Pátio do Colégio, centro e marco da fundação de São Paulo, mas esta é história para outro dia, já que em sendo lá território dos Jesuítas fiquei apreensivo com a possibilidade de um deles me reconhecer como Índio não catequizado e resolver completar o serviço.

Mais tarde, para checar as respostas do iluminado monge, recorro ao abençoado google. Digito beneditinos e maçonaria. As respostas vêm aos montes. Uma das referências, me chama a atenção:

Já em plena Idade Média, antes de aparecer a Maçonaria Operativa ou Maçonaria de Ofício, entrando em evidência a Arte Gótica, quando começaram a ser construídos muitos conventos igrejas catedrais e palácios, neste período foram importantes as Associações Monásticas principalmente constituídas pelos Beneditinos e Cistercences, que eram clérigos, experientes projetistas e geômetras, excelentes oficiais na arte de construir. Dominaram o segredo da construção por muito tempo, o qual ficou inicialmente restrito aos conventos
...
Entretanto eram obrigados a contratar profissionais leigos, pois a demanda cada vez maior de construções e serviços secundários assim o exigia. Estes profissionais foram aprendendo com estes clérigos e com o tempo em face da decadência da fase Monástica, constituíram as Confrarias Leigas....Os Beneditinos (Ordem de São Bento fundada por São Bento em 529 D.C. e os Cistercences os monges de Císter- França (fundada em l098 pelo abade De Molesme) são considerados por vários autores como os ancestrais da Maçonaria Operativa,

MAÇONARIA CONTEMPORÂNEA - ABORDAGEM HISTÓRICA
Hercule Spoladore – Loja de Pesquisas Maçônicas “BRASIL”-LONDRINA-Pr

Espero que o jovem monge seja tão simpático e paciente quanto me pareceu. Ele vai ter muito que me explicar no próximo domingo Laetare.






terça-feira, 26 de maio de 2009

CREDO

por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 27 Nov 2008, 21:27

Creio no Código do Guerreiro
na supremacia do BEM
na grandeza humana
e no meu amor pelos meus filhos

Creio nas antigas virtudes
de antes do Código
no valor da Honra
na importância do Dever
e na necessidade do Sacrifício

Creio em abaetê meu Pai
Cacique dos Tupis
e nos abaetê-pai de antes dele

Creio no brilho de nossos sábios
na poesia de nossos bardos
e no heroísmo de nossos bravos

Creio em Monã
que colocou as estrelas no céu
em Mayra
que ensinou a cultivar o milho
em Sumé
que ensinou a viver juntos
e em Tupã

que ensinou a temer

Creio nos espíritos da mata
E em Yvy marã ei

Creio na santidade da Vida
na pureza da Verdade
e na nobreza da Liberdade

Creio na compaixão
e na esperança

Creio na minha Força

Creio em lutar com Bravura
morrer com Honra
e tombar com glória

Creio no Código do Guerreiro
na supremacia do BEM
na grandeza humana
e no meu amor pelos meus filhos

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O Que Digo aos Meus Filhos

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 8/3/2005 23:06:21

Que tudo na vida tem seu tempo, como é passado o tempo de meus pais, assim um dia passará o meu, mas se eles assim quiserem o tempo deles será sucedido pelo tempo de seus filhos e a vida continuará...

Que existe uma coisa chamada “o Bem” que aprendi do exemplo de meu pais e que procuro passar pelo exemplo a eles, para que pelo exemplo passem aos filhos deles e assim o Bem se perpetue...

Que eles são meus filhos, que eu os elegi minha missão de vida, e com uma missão a vida faz sentido...

Que não os crio para um dia serem bons filhos, eu os crio para um dia serem bons pais...

Que aprendam a ser fortes, pois precisarão sê-lo, mas que jamais usem esta força para oprimir os mais fracos...

Que eu caminhei sobre a terra, vi e aprendi muitas coisas, muito poucas ante o tanto que há para se ver e aprender, mas que trabalhei para que eles tivessem mais oportunidades de ver e aprender do que as que eu tive, assim como meus pais trabalharam para que eu tivesse mais oportunidades do que tiveram eles, para que assim, cada nova geração caminhe sobre a terra com mais visão e com mais sabedoria...

Que nossos antepassados foram caçadores e guerreiros, que temiam a noite e os perigos da floresta, mas que também olhavam as estrelas e sonhavam um dia poder tocá-las...

Que antes de nós, caminharam pela terra grandes homens, que com brilho nas mentes e fogo nas almas criaram arte, filosofia e nossa grandiosa ciência, e que tal legado é a nossa herança...

Que pertencemos à espécie dos seres que pisaram o solo da lua e lá deixaram as palavras “viemos em paz, por toda a Humanidade”...

Que todos os homens, sem exceção, fazem parte da grande aventura humana...

Que quando for findo o meu tempo e o deles estiver no auge, que, se puderem, lembrem de mim com carinho, e eu estarei em paz.

Igualdade, Liberdade e Fraternidade à Paulista



Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 27/12/2007 às 23:16

No sábado anterior ao Natal, levei meus filhos pela primeira vez ao Monumento da Independência, no Ipiranga, em São Paulo.
O cenário é dominado pela beleza, surpreendentemente preservada, dos jardins que imitam os do Palácio de Versailles, no parque anexo em cujos extremos se situam o riacho do Ipiranga, com o Monumento contíguo de um lado e, do outro, o imponente prédio neo-renascentista do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, mais conhecido como Museu do Ipiranga.
Confesso que senti certa decepção quando meu filho não demonstrou o mesmo entusiasmo que eu ao contemplar a grande bandeira do Brasil tremulando altiva sobre a chama perene que, desde 7 de setembro de 1952, representa o amor incondicional à Pátria.

Minha filha, quatro anos mais jovem que o menino, tomou a deixa, perguntando o significado das estátuas de bronze no topo da construção.

Expliquei que a imagem mais alta, conduzida em uma carruagem, representava a Liberdade, cercada e protegida por personagens que representam o povo, a quem guia adiante. Dentre estes personagens, um Índio e um homem tombado sobre louros, que nos lembra que guardar a Liberdade exige disposição para o sacrifício.
A conversa me sugeriu um hiato que construo aqui.

Aquele momento culminava uma peregrinação por pontos de São Paulo que, intencionalmente ou não, representam alguns de nossos ideais mais caros.

Sob a sombra do Obelisco do Ibirapuera, expliquei ao meu filho que aquela construção, erigida em homenagem aos soldados constitucionalistas de 1932, reverenciava os paulistas que pegaram em armas pela causa da Lei.
Como isto não foi o suficiente para lhe despertar maior interesse, me vali de acontecimento recente daquele dia, quando almoçamos no restaurante do parque e um homem pobre, talvez orgulhoso demais para pedir, se servia dos restos deixados nas mesas e, em instante irônico, reclamava das batatas fritas deixadas à sua disposição – frias, segundo ele.

Aproveitando que a passagem cômica despertou a atenção do garoto, complementei, antes que se dispersasse novamente, que esta era a razão de ser da Lei. Garantir que todos os Homens tivessem os mesmos direitos. Mesmos aqueles que, pelas circunstâncias e escolhas da vida, tinham que se servir de restos, são reconhecidos, perante a Lei, como iguais a quaisquer outros Homens. Por isto, por esta Igualdade, valeu e vale a pena lutar. E Lembrar.

A outra passagem deste hiato se deu no Páteo do Colégio, marco da fundação da cidade de São Paulo, que prezo, mas me desperta certa cautela, por ser até hoje território Jesuíta, onde é melhor não catequizados como eu ficar atentos.

Após visitarmos o Museu e a Capela Anchieta, retornamos à praça dominada pelo Monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, onde uma muito longa fila, de pessoas de diferentes roupagens e aparências, se movia lenta, ordeira e pacientemente para receber uma boa e completa refeição gratuita servida por voluntários.
Disse aos meus filhos que quando nossos ancestrais conheceram os primeiros colonizadores portugueses, este planalto isolado do mar por uma cordilheira íngreme era tido como terra inviável, mas com trabalho e perseverança, Homens de todas as partes do Brasil e de fora dele construíram aqui uma das maiores cidades do mundo.

A cena daqueles tantos que dependiam da caridade alheia para comer e que depois do almoço se aninhavam para dormir pelas calçadas deixava claro que ainda tínhamos muito que fazer, um futuro a construir.
Olho meus filhos.
Olho a estátua que no topo do monumento segura uma tocha.

Olho em volta, o Páteo, o Colégio reconstruído mais de uma vez, a capela e a pequena multidão deitada sob as marquises das lojas e sobre restos de comida.

Não é uma bela cena, mas a Grande Cidade garantiu que naquela tarde, nos arredores do local onde foi fundada, nem o mais pobre de seus filhos passaria fome.

As Mortes do Guerreiro

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 4/2/2005 23:45:38

Como manda o Código, há três mortes possíveis para o Guerreiro: o tombar com glória, o morrer com honra e a outra.

O tombar com glória é destinado ao Guerreiro que no auge da contenda, com braço forte e bravura no coração, foi sobrepujado no campo da honra por um oponente mais valoroso.
Para este Guerreiro, seus últimos pensamentos são por aqueles e aquilo que defende e sua última esperança é de poder empunhar a arma por mais um golpe.
Caberá aos seus companheiros imaginar seu destino, que para eles é certo, encontrar os portões do Valhalla abertos e ser recebido lá pelos irmãos de armas que tombaram antes dele.À sua espera um garanhão bravio.
Ao entrar, o mais bravo entre os que tombaram porá a mão direita em seu ombro direito e lhe entregará as rédeas do garanhão.
E juntos cavalgarão todos pela campina aberta, ao pôr do sol, com o vento no rosto.

O morrer com honra é destinado ao Guerreiro que venceu todas as batalhas, conheceu o triunfo e chegou ao tempo em que o coração ainda é bravo, mas o braço não mais é forte.
Para este Guerreiro, seus últimos pensamentos são por aqueles a quem ensinou o que manda o Código e sua última esperança é que aqueles a quem ensinou perpetuem o BEM.
Se a sua hora lhe conceder tempo para tal, terá o direito de imaginar que em sua chegada ao Valhalla encontrará os portões abertos e será recebido por aqueles que lhe ensinaram o que manda o Código e por aqueles a quem ensinou o que manda o Código e que tombaram com glória antes que ele morresse com honra.
Entre todos, lhe porá a mão direita no ombro direito quem primeiro lhe falou das antigas virtudes, do valor da Honra, da importância do Dever e da necessidade do Sacrifício. E de novo estarão juntos os que ensinaram e os que aprenderam.

A outra morte é a que não tem nome, pois nenhum Guerreiro ousaria chama-la.
Ela é destinada ao Guerreiro cujo braço é forte, mas a bravura abandonou seu coração. Embora pudesse erguer suas armas, optou por quedá-las aos pés do oponente, abandonando aqueles e aquilo que deveria defender.

Para este, seus últimos pensamentos serão pelos que tombaram com glória ao seu lado no campo da honra. Lembrar-se-á deles e desejará não ter trocado aquele momento por toda a vida que se lhe seguiu.

Terá todo o tempo do mundo para imaginar sua chegada ao Valhalla, quando encontrará os portões fechados e por suas frestas poderá ver apenas as costas dos que foram seus irmãos de armas.Da mesma forma que deu às costas às antigas virtudes do Código.

E sem o Código, não há esperança.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Abaetê que me Ensinou a Pescar

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 26/10/2007 às 22:39

Nascer do sol.
Nosso grupo reunido na praia ouve as palavras do abaetê que comanda a pescaria.

- Hoje, nós vamos matar peixes, diz.

Na época entendi a frase apenas como a previsão otimista de uma abundante e divertida pesca.
Minha primeira em mar aberto.

Demorou alguns anos para que eu entendesse que o abaetê nos alertava que o que iríamos tirar da água não eram brinquedos postos lá para nossa diversão, eram seres dotados de vida, às quais daríamos cabo ao realizar nosso propósito.
Demoraria mais alguns anos para que eu entendesse completamente o significado daquelas mortes.

Anos antes daquele nascer do sol, eu conhecera o abaetê.

Tinha ouvido falar de um velho Índio que ensinava música.Não primitivas fonias tribais, mas Bach, Liszt, Mozart e Villa Lobos, de quem fora aluno.
Um Índio ex-aluno de Heitor Villa Lobos, que lecionava música clássica, deveria ser objeto de curiosidade, mas não tanto para o jovem soldado, trabalhador e estudante, mais interessado em aprender os rudimentos da arte.

Levado por amigos a casa dele, onde ministrava as aulas, aguardei sua chegada na sala dos fundos, dominada pelo quadro negro com pentagrama musical em clave de Sol gravado.
Sentei-me na confortável poltrona posicionada no centro da sala e iniciei a leitura de um jornal deixado próximo.

Minha leitura foi interrompida por uma voz baixo profundo, conforme a própria me ensinaria mais tarde:

- Você está sentado na minha poltrona...
- Você está lendo meu jornal...
- E Você é... você é um Índio...

Hoje sei que deveria ter respondido "sou Acauan, e abaetê meu pai é cacique dos Tupis".
Mas meu caminho para tal resposta passava por aquele dia.

De volta à pescaria.
O abaetê prende os longos cabelos com uma bandana e se posiciona na popa do barco, lugar reservado para o melhor pescador.

- Estou no meu elemento, diz.

Eu tomo pílulas contra enjôo e avalio as condições de segurança da embarcação.
São duas longas horas mar adentro até chegar ao ponto de lançar âncora e iniciar a pescaria.

No caminho, ouço histórias nada animadoras sobre tempestades no mar, que avançavam rápido a ponto de exigir que se cortasse a corda da âncora ao invés de recolhê-la, com ondas que lavavam o convés, arrastando tudo que estava solto nele.Também não animava a detalhada descrição do estalar dos cavernames quando a embarcação desabava sobre a superfície do mar, após uma empinada de quase noventa graus.
Quando o barco para e o motor é desligado, resta o silêncio, a maresia e o balançar ritmado do mar alto.
Combinação desastrosa para os propensos que não se preveniam quimicamente contra o enjôo, como descobriria na minha segunda vez.

- O que importa é a luta. Diz o abaetê, que em seguida narra detalhadamente a pescaria anterior, quando se debatera por mais de hora contra uma arraia presa à sua linha, após ordenar o recolhimento de todas as dos demais, que se puseram na condição de expectadores do combate entre aquele determinado homem contra aquele determinado peixe.

A pesca se inicia.
Linhas e anzóis são distribuídos.
Neste tipo de pescaria não se usa vara, apenas linhadas.

O abaetê prepara seu anzol com bóia, lançado especificamente para capturar um tipo especial de peixe, a prejereba, presa marítima cobiçada pelo sabor da carne, pela dificuldade da captura e pela fúria da luta com que resistia até a exaustão. Costuma nadar próximo à superfície do mar, de onde a técnica de lançar anzóis com iscas especiais rentes a bóia.

Preparo minha linha e a enrolo em torno do meu dedo para melhor sentir as puxadas.

- Não faça isto, avisa o abaetê.

Ele me explica que com a linha enrolada daquela forma, meu dedo pode ser decepado caso um grande peixe a estique abruptamente com força.
Contou-me de uma vez em que um destes fez uma grossa linha de nylon soar nota Lá, como se fosse uma corda de violão.
Ainda me surpreendia com a capacidade do abaetê de identificar prontamente notas musicais nos sons do cotidiano.Certa vez me ensinara a afinar o instrumento a partir do som do sinal do telefone, segundo ele um Si bemol.

- Lá sustenido? Perguntei.

- Não, é um Si bemol, respondeu.
Sem que eu jamais descobrisse a diferença entre os dois sons que, conforme a teoria musical dos meio-tons, deveriam ser o mesmo.

Desfaço as voltas da linha em torno do dedo e passo a segurá-la tocando de leve com a ponta do indicador, apenas o suficiente para sentir seu movimento.

A correnteza é forte e dá a impressão de que sempre há um peixe puxando a linha, hipótese sempre desmentida cada uma das várias vezes em que recolhia o anzol apenas para constatar que a isca permanecia intacta nele.

Esta ação se repete ao longo de toda manhã, mudando apenas a condição da isca, em algumas vezes comida por um peixe mais esperto que o pescador, no caso, eu.

Enquanto isto, o abaetê lota o barco de cações, fisgados um após o outro com uma facilidade que sugere que se valha de algum aparato secreto que escondeu de nós ou recorra a alguma antiga feitiçaria indígena que nunca me foi ensinada.

A cada peixe fisgado o abaetê canta alto frases em Tupi antigo, festejando a vitória.
Mesmo assim, ele não está satisfeito. Quer a prejereba.

E então, sem mais, ele aponta o céu.

- Albatrozes.

Os demais entendem apenas como um chamado a apreciação daqueles pássaros notáveis, que pairam sobre o mar com nobreza tal que sugere terem sido postos lá pelo próprio Netuno.

Lembrei-me de uma conversa de mesa de bar, entre cervejas e histórias, quando falei de meus acampamentos, de o quanto após um dia de aventuras e empreitadas eu gostava de me sentar na praia para admirar o vôo dos albatrozes e seus mergulhos para apanhar peixes que só eles sabiam localizar no fundo d'água, do majestoso alto de onde partiam.

- Leviatã do espaço, albatroz, albatroz, dá-me estas asas. Recitou o abaetê.

- Castro Alves, disse, reconhecendo o verso.

Seguiu-se um rápido dueto em que ele iniciava uma estrofe de "Navio Negreiro" e me incentivava a completá-la.

Após três ou quatro rodadas deste jogral, me rendi declarando não lembrar a continuidade do trecho iniciado por ele.

O abaetê me olhou com uma mistura de incentivo e censura, que mais tarde entendi que se tratava de uma lição importante - se algo vale a pena ser aprendido, não a aprenda pela metade, como me mostrou ao demonstrar conhecer o poema da primeira à última palavra.

Meu devaneio sobre albatrozes e conversas passadas é subitamente interrompido por um forte puxão na linha que toco com a ponta do dedo.

O momento chegara.

- Peguei um, grito.

- Confirme a fisgada, diz o abaetê.

Seguro firmemente a linha e dou-lhe um forte puxão, um tranco. O objetivo é fazer com que o anzol crave firme na carne do animal e impeça sua fuga durante a puxada.

Puxo a linha com entusiasmo.

Meu primeiro peixe oceânico.
Que não seja uma espada, gênero desprezado pelos pescadores experientes, pela facilidade com que se dá ao anzol.

Quando a superfície do mar se agita na ponta da linhada contemplo meu prêmio.
Um cação.
Minha primeira presa era um pequeno tubarão.

Termino de puxá-lo para dentro do barco e o seguro a uma distância segura, temendo os dentes serrilhados do peixe que brandia suas mandíbulas no seu debate final.

- Você está com medo de um peixe morto?

A voz do abaetê interrompe meu breve momento de vitória.

- Mate! Completa.

O abaetê me olha duramente enquanto me oferece o bastão de madeira com o qual devo esmagar o crânio do tubarãozinho.
É o procedimento de rotina.
Uma espada possui dentes longos e afiados como navalhas. Se largada viva no convés pode facilmente rasgar a pele de um pescador distraído antes de morrer, por isto os peixes devem ser cacetados antes de dispostos.

Faço o que tinha que fazer e encerro a história daquele representante de uma espécie que cruza os mares há dezenas de milhões de anos.

Não me choco.
Sou um Tupi.
O animal lutou e encontrou a morte em combate honrado.
Desde criança fui ensinado a não sentir pena do animal abatido.
O último sentimento que deveríamos dirigir ao animal que nos alimentaria era respeito e não piedade.

Tudo me era perfeitamente claro.
Eu tirara aquele peixe do mar.
Seria indigno lançá-lo a um canto do barco para que asfixiasse até a morte, como se fosse um pedaço de lixo.

Ele devia morrer pelas minhas mãos em um ato ritual em que eu o olharia diretamente em seu último momento de vida.
Depois comeria sua carne e o peixe que matei se tornaria parte de meu corpo.

No passado, meus ancestrais faziam isto com seres humanos.

O abaetê me olha satisfeito.
Sua missão fora cumprida.

Eu aprendera naquelas horas em mar alto tanto quanto nas leituras dos livros de Platão que o abaetê me emprestara.
Nunca esqueci o destaque que deu a uma citação de "A República".

- No mundo sensível, o BEM engendrou um filho, o Sol.

Olho indiretamente o sol que caminha para o poente sobre o mar.
Olho o abaetê, comemorando o triunfo de uma pescaria farta, coroada pela prejereba içada após luta ferrenha.

Levanta-se a âncora.
O barco parte de volta à costa.

Mais tarde o abaetê me ensinaria como tirar o couro do cação com a faca e o melhor modo de remover suas vísceras, deixando claro, sem dizer, que eu deveria fazer isto.

Gaivotas sobrevoam o barco, atraídas pelo cheiro dos peixes.

Posiciono-me na proa e observo os reflexos do sol no mar.

Um albatroz mergulha.

Um gavião caminha.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Quadrilogia Tupi IV - A Alvorada de um Guerreiro

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em Janeiro de 2004

Noite.Caminho com meu filho por uma trilha na mata.A certa altura o curumim se interessa por uma grande e velha árvore que avista trilha adentro, parcialmente oculta na escuridão.

- Vamos até lá? Pergunta ele.

- Por que não vai sozinho. Eu te espero aqui.

- Eu não. Responde o menino, surpreso com minha proposta.

- Por que não?

- É noite..., está escuro.., é longe.

- Então ande até o mais próximo que quiser da árvore e volte. Estarei aqui olhando.

Meu filho avançou trilha adentro até mais ou menos um terço da distância que nos separava da árvore e voltou. Olhou para mim, recebeu um sorriso de aprovação e retornamos.

Nas noites seguintes repetimos o feito, sendo que a cada vez ele avançava mais mata adentro, se aproximava um pouco mais de seu objetivo e voltava orgulhoso do novo trecho conquistado.

E então, na última noite ele caminhou sozinho até a velha árvore pela trilha escura e voltou, excitante por tem vencido o desafio ao qual se propôs.

Pouso minha mão no ombro dele e pergunto:

- Você antes tinha medo de caminhar até a árvore. Agora não tem mais. Por quê?

- Não sei...

Então eu lhe falei dos antigos Tupis e de como prezavam a coragem. E de um rio que cruzei a cavalo quando tinha a idade dele.

Quadrilogia Tupi III - ABAETÊ

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em Janeiro 2003

No último rito anual que fiz com meus filhos na mata, quando rememoramos nossas tradições ancestrais, eu falei a eles sobre meu pai, falecido antes que nascessem.

Disse-lhes que ele foi um valoroso guerreiro, um grande abaetê (homem honrado) e um sábio cacique.

Meu filho mais velho, de oito anos, ouviu a história com atenção enquanto eu notava que a tristeza tomava o seu semblante.

- O que foi, meu filho? Perguntei.

- Por que todo mundo tem que morrer? Disse ele, me dando por resposta a mais solene das perguntas.

O olhar do curumim buscou os meus olhos, certo de que no pai encontraria todas as respostas. Naquele momento, eu não poderia falhar.

- A natureza é feita de tempos filho. Disse ao curumim.

- Como assim?

- O tempo de meu pai é passado, um dia será passado o meu e ao seu tempo sucederá o do seu filho. Respondi.

Minha explicação não tirara de seus olhos a expressão triste. Então prossegui.

- Meu pai vive em meu coração. Agora que lhe falei sobre ele, um dia, meu pai e eu viveremos no teu. Fale de nós ao teu filho, e um dia, nós três, seu avô, eu e você, viveremos no coração dele.

Meu filho olhou para mim, seus olhos brilharam numa lágrima. Ele havia entendido. O pequeno curumim um dia será um valoroso guerreiro, um grande abaetê e um sábio cacique.

E eu viverei no coração dele.

Quadrilogia Tupi II - Elegia em Prosa a um Cacique

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 30/7/2004 22:17:14

Quando eu tinha dez anos, visitei as terras ancestrais de meu pai e de meu povo.

Não era a primeira vez. Na anterior eu havia conhecido o gavião que me dera nome e título, mas esta é uma outra história.

Esta começa a beira de um rio caudaloso, de forte correnteza, onde um menino montado num cavalo recebe as instruções de dois membros do clã sobre como atravessá-lo.Alertam-me que a correnteza provoca tonturas e me orientam para que eu fixe o ponto de saída na outra margem e conduza firmemente o animal sempre naquela direção.

Cheio de temor e empolgação iniciei a travessia, exultante ante a idéia de vencer tal desafio sozinho, mesmo acreditando que se caísse do cavalo certamente morreria afogado, dadas a profundidade e a correnteza do rio.

O tempo do percurso deve ter sido de pouco minutos, mas para mim pareceu infinitamente maior, tal era a tensão com que manobrava as rédeas, temendo cometer um erro potencialmente fatal.

Não sei quantos de vocês já passaram por experiência semelhante.O burburinho do rio lhes enche os ouvidos de tal forma que não se consegue ouvir outra coisa, enquanto a correnteza produz a ilusão de que a margem de destino desliza móvel ante seus olhos, como a plataforma da estação passa diante dos que ocupam o vagão de um trem que parte.

Medo e vontade de vencer o desafio se alternavam em mim.

Quando cheguei exultante à outra margem, meus dois acompanhantes se limitaram a me olhar satisfeitos e dizer:

- Seu pai cruzava este rio a nado.

Depois daquele evento, notei que todas as vezes que me apresentavam a alguém, diziam não mais apenas este é Acauan, como sempre fizeram. Passaram a dizer este é Acauan, filho de ..., e diziam o nome de abaetê meu Pai.

Anos depois, passei a lembrar daquele dia com estranheza. Como adultos responsáveis deixaram uma criança correr risco de vida naquela travessia?

Foi preciso mais algum tempo para que eu soubesse o que de fato ocorrera.O cavalo que eu montava era habituado a cruzar o rio naquele ponto e o atravessaria com segurança, quer eu o conduzisse corretamente ou não.Os dois acompanhantes se posicionaram em cada um dos meus lados, atentos a me socorrer ao primeiro pedido de socorro ou a se lançarem a água caso eu caísse.

Eu estava absolutamente seguro.

Sem saber, passara por um ritual de coragem, reservado aos filhos homens dos abaetês caciques.

Muito se havia perdido.
Nossa língua morreu.
Nossa identidade guerreira morreu.
Nossa cultura ancestral morreu.

Ou quase.Algo sobreviveu.

A idéia de que o filho de um grande cacique devia ter sua coragem testada, para se fazer digno de ser quem era.

Naquele dia nasceu ACAUAN DOS TUPIS.

Honra e glória à memória de abaetê meu Pai. Valoroso guerreiro, cacique dos Tupis.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Quadrilogia Tupi I - O Gavião que Caminha

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 3/1/2005 17:10:50

Acauan criança caminha pela trilha na mata, aberta por seus ancestrais.

Nascido e criado na cidade dos brancos, o pequeno Tupi se maravilha com a beleza dos imponentes bambuzais que margeiam a trilha, plantados por seu pai, abaetê e cacique.

À margem do riacho, Acauan avista três gaviões pousados no topo de um bambuzal.

Acauan olha os gaviões.

Os gaviões, altivos, ignoram Acauan.

Acauan não sabe por quanto tempo ficou olhando os gaviões.
Nem sabe que os caminhos da vida o levarão para muito além da trilha dos Tupis.

Mas de uma coisa Acauan sabe.

Os gaviões o acompanhariam por toda a vida.

Acauan caminha.