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segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Inverno do Nosso Descontentamento

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 1/05/2006, às 22:30

Ó inverno do nosso descontentamento
foi convertido agora em glorioso verão por este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano
...
Pois eu, neste ocioso e mole tempo de paz, não tenho outro deleite para passar o tempo afora o espiar a minha sombra ao sol e cantar a minha própria deformidade.

William Shakespeare, RICARDO III, ato I, cena I

Uma das grandes aflições da condição humana é a distância abissal que separa nossas aspirações, potencialmente ilimitadas, de nossa capacidade de realizá-las, restrita às possibilidades finitas de nossos recursos e tempo de vida.

Como espécie, somos virtualmente imortais e as culturas e civilizações que criamos nos permitem acumular conhecimento e recursos ao longo de gerações e assim ampliar continuamente nossas capacidades de realização.

Mas a satisfação reside no indivíduo e não na espécie.

Como Ricardo, que contempla o triunfo da casa de York e expressa seu rancor por suas imperfeições o intimidarem de usufruir o advindo verão da vitória, também nós, ao contemplarmos as realizações da Grandeza Humana do ponto de vista de nossas finitudes, nos recolhemos ao espiar de nossas sombras e retornamos ao inverno do nosso descontentamento.

A religião oferece a fé na infinitude do indivíduo, mas se oferece o meio, retira o fim. A eternidade prometida realiza o propósito de Deus e não os propósitos humanos. Se Ricardo III expiasse suas muitas culpas e alcançasse o paraíso prometido pelo Cristianismo ou pelo Islã se veria livre de suas deformidades e pronto para o deleite no glorioso verão. Só que não seria a glória da casa de York, de sua casa.

A frustração da glória sem deleite seria substituída pelo deleite na glória alheia.

domingo, 28 de junho de 2009

Santa Croce, o Triunfo do Espírito

(Estudo Nº 1 para conclusão da série Considerações sobre o espiritual)
Publicado originalmente em 2/11/2004 15:55:30

por Acauan Guajajara


nulli aetatis suae comparandu
(Inscrição no túmulo de Galileo Galilei, Basílica de Santa Croce, Florença, Italia)

Numa primeira vista, a Basílica de Santa Croce, em Florença na Itália, não causa deslumbramento. Ofuscada pela onipresença imponente da catedral Duomo, a construção gótica parece ser mais uma igreja entre tantas da gloriosa cidade toscana.

Basta adentrá-la para mudar de idéia.

Como uma lufada de luz, a grandeza humana sopra e ilumina o visitante que se depara com as tumbas e monumentos fúnebres que o velho templo abriga.
Os nomes falam por si só: Michelangelo Buonarroti, Dante Alighieri, Nicolau Maquiavel, Giacomo Rossini, Galileo Galilei, Guglielmo Marconi, Enrico Fermi e muitos outros.

As inscrições nas lápides fazem mais do que identificar:

Galileo Galilei, geômetra, astrônomo, filósofo, matemático, incomparável em seu tempo...

Michelângelo Buonarroti, escultor, pintor e arquiteto, fama omnibus notissimo...

Nicolau Maquiavel, tanto nomini nullum par elogium.

A inscrição na tumba de Maquiavel poderia ser repetida em todas as outras: - Tão grande nome, nenhum elogio alcança.

Santa Croce nos lega uma mensagem.

Aqueles homens estão mortos, e mesmo assim caminham conosco pelos corredores da vecchia chiesa, erguem nosso olhar com seus braços apontando o adiante, enquanto nos dizem – continuem nossa obra, sigam em frente, descubram a verdade, aprendam a justiça, criem o belo, sede corajosos e alcancem o BEM.

Em Santa Croce, os altares erguidos para celebrar a memória de um Messias ressurrecto aceitam resignados o papel de coadjuvantes, diante da memória celebrada de outros que venceram a morte, mesmo que imersos em seu sono.
Nos ensinando e lembrando que existe transcendência na condição humana. Nossa descendência, nossa obra, nosso ideal. O amor que motivamos e a memória que construímos.

O heroísmo de nossos bravos, o brilho de nossos sábios e a poesia de nossos bardos não morre.
O triunfo do espírito humano vive.Em Santa Croce e em cada um de nós.

terça-feira, 26 de maio de 2009

ESTÓICOS

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 06/07/2007 às 22:55

Como manda o Código, o Guerreiro se fartará no suficiente.

Quando tiver por lençol a relva e por cobertor o firmamento, não se encontrará sobre as penas do ganso sono mais reparador.

Beberá da rocha que brota e do orvalho servido na folha côncava.
E sentirá frescor menor apenas do que aquele que exala do hálito da mulher amada.

Em sua mesa porá o fruto brilhante, o animal que corria ou a raiz que se entranha.
E se banqueteará.

Quando o vento gélido navalhar sua pele ou o sol inclemente secar suas lágrimas, o Guerreiro se aquecerá ou refrescará no triunfo futuro.

Pois comparado ao triunfo do Guerreiro, o mais macio leito é pedra, a água mais pura é areia e a carne mais tenra é vento seco.

Na noite do triunfo, o Guerreiro olhará seus pés e verá sob eles os prazeres da Terra.
Erguerá seus olhos para os olhos dos Seus, nos quais o triunfo se refletirá em sua plenitude.
E os erguendo mais, contemplará nas estrelas do Céu os que tombaram com glória.

Como manda o Código.

CREDO

por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 27 Nov 2008, 21:27

Creio no Código do Guerreiro
na supremacia do BEM
na grandeza humana
e no meu amor pelos meus filhos

Creio nas antigas virtudes
de antes do Código
no valor da Honra
na importância do Dever
e na necessidade do Sacrifício

Creio em abaetê meu Pai
Cacique dos Tupis
e nos abaetê-pai de antes dele

Creio no brilho de nossos sábios
na poesia de nossos bardos
e no heroísmo de nossos bravos

Creio em Monã
que colocou as estrelas no céu
em Mayra
que ensinou a cultivar o milho
em Sumé
que ensinou a viver juntos
e em Tupã

que ensinou a temer

Creio nos espíritos da mata
E em Yvy marã ei

Creio na santidade da Vida
na pureza da Verdade
e na nobreza da Liberdade

Creio na compaixão
e na esperança

Creio na minha Força

Creio em lutar com Bravura
morrer com Honra
e tombar com glória

Creio no Código do Guerreiro
na supremacia do BEM
na grandeza humana
e no meu amor pelos meus filhos

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As Mortes do Guerreiro

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 4/2/2005 23:45:38

Como manda o Código, há três mortes possíveis para o Guerreiro: o tombar com glória, o morrer com honra e a outra.

O tombar com glória é destinado ao Guerreiro que no auge da contenda, com braço forte e bravura no coração, foi sobrepujado no campo da honra por um oponente mais valoroso.
Para este Guerreiro, seus últimos pensamentos são por aqueles e aquilo que defende e sua última esperança é de poder empunhar a arma por mais um golpe.
Caberá aos seus companheiros imaginar seu destino, que para eles é certo, encontrar os portões do Valhalla abertos e ser recebido lá pelos irmãos de armas que tombaram antes dele.À sua espera um garanhão bravio.
Ao entrar, o mais bravo entre os que tombaram porá a mão direita em seu ombro direito e lhe entregará as rédeas do garanhão.
E juntos cavalgarão todos pela campina aberta, ao pôr do sol, com o vento no rosto.

O morrer com honra é destinado ao Guerreiro que venceu todas as batalhas, conheceu o triunfo e chegou ao tempo em que o coração ainda é bravo, mas o braço não mais é forte.
Para este Guerreiro, seus últimos pensamentos são por aqueles a quem ensinou o que manda o Código e sua última esperança é que aqueles a quem ensinou perpetuem o BEM.
Se a sua hora lhe conceder tempo para tal, terá o direito de imaginar que em sua chegada ao Valhalla encontrará os portões abertos e será recebido por aqueles que lhe ensinaram o que manda o Código e por aqueles a quem ensinou o que manda o Código e que tombaram com glória antes que ele morresse com honra.
Entre todos, lhe porá a mão direita no ombro direito quem primeiro lhe falou das antigas virtudes, do valor da Honra, da importância do Dever e da necessidade do Sacrifício. E de novo estarão juntos os que ensinaram e os que aprenderam.

A outra morte é a que não tem nome, pois nenhum Guerreiro ousaria chama-la.
Ela é destinada ao Guerreiro cujo braço é forte, mas a bravura abandonou seu coração. Embora pudesse erguer suas armas, optou por quedá-las aos pés do oponente, abandonando aqueles e aquilo que deveria defender.

Para este, seus últimos pensamentos serão pelos que tombaram com glória ao seu lado no campo da honra. Lembrar-se-á deles e desejará não ter trocado aquele momento por toda a vida que se lhe seguiu.

Terá todo o tempo do mundo para imaginar sua chegada ao Valhalla, quando encontrará os portões fechados e por suas frestas poderá ver apenas as costas dos que foram seus irmãos de armas.Da mesma forma que deu às costas às antigas virtudes do Código.

E sem o Código, não há esperança.