quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Filosofia Cristã e a Invenção Intelectual do Indivíduo


Por Acauan

Não foi a Filosofia Cristã que inventou o Indivíduo, mas este conceito praticamente não existia nas Filosofias e Doutrinas Espirituais do Oriente.  No Budismo e Hinduísmo, por exemplo, a ideia de Consciência Individual é quase que uma anomalia na Harmonia do Cosmos e o anseio principal da alma ao reencarnar é dissolver-se no Nirvana.

No Civismo Romano, um Homem era a posição que ocupava na Sociedade.  A única igualdade possível entre um Patrício Romano e um escravo era o fato de ambos serem mortais.

Os Gregos Socráticos entendiam perfeitamente o conceito de Indivíduo, mas Platão se perdeu um tanto na Analogia da Caverna, onde o mundo que vemos são apenas sombras da Realidade, enquanto Aristóteles estava mais preocupado com Física e Metafísica, em entender o Universo externo a ele próprio.

São a Escolástica e o Tomismo que reinterpretam a Filosofia de Platão de modo revolucionário.
Ao invés de entender que tudo que percebemos são apenas sombras de um mundo real superior, a Filosofia Cristã dividiu esta Realidade em mundo material, apreensível pelos sentidos e um Mundo Espiritual, fora de nossa percepção.
Até aí, em nada diferente de praticamente todas as Mitologias Religiosas.

A novidade é que no centro destes dois mundos a Filosofia Cristã colocou o Indivíduo Humano, capaz de entender o Mundo Natural pela inteligência e o Mundo Espiritual pela Fé.  
Com isto, o Homem era reposicionado da periferia da Realidade, onde era apenas um observador iludido para quem a Verdade se situava em algum ponto inalcançável à consciência do mortais.
O Indivíduo Humano passava a ser o ponto focal de toda Realidade, que ao olhar para baixo podia compreender por si as coisas da Terra e pela inspiração divina era capaz de vislumbrar os Céus. 
Daí o sentido da máxima de Santo Agostinho "Intellige ut credas, crede ut intelligas", entender para crer e crer para entender.

Temos aí a sacralização do Indivíduo, resumido na Teologia Cristã no Princípio do "Homem Sozinho Perante Deus". O Homem dotado de alma imortal própria, cujo conteúdo da alma é construído por suas decisões, independente de quaisquer fatores externos.

O princípio da sacralização do Indivíduo Humano é a base de toda Moral do Ocidente e fundamento das Democracias Modernas.  Os que negam este Princípio e apontam o Iluminismo, particularmente o Iluminismo Francês, como uma ruptura com os conceitos medievais desconhecem, ou fingem desconhecer, que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não fariam o menor sentido em uma sociedade na qual o reconhecimento do indivíduo já não estivesse arraigada em sua Cultura.  Não por acaso o Iluminismo se deu na Europa e não na Índia, China ou Japão.

Os que acham que as ideologias revolucionárias materialistas são moderninhas não entendem ou não querem entender que sua visão da condição humana nada mais é que um retrocesso de dois mil anos. 
Ao deslocar o Indivíduo do centro de convergência da Realidade e substituí-lo pela "Sociedade", "Classe", "Nação" ou "Raça", coletivos abstratos sem consciência, tudo que fazem é reduzir este indivíduo a nada mais ou melhor que um animal mais esperto que os outros ou a espécimes sobre os quais a evolução natural e social (História) atuam sem que cada espécime por si só tenha alguma importância em particular.

Não é difícil concluir como este reposicionamento do Indivíduo leva inevitavelmente ao colapso moral, o que implica que, gostem ou não os Modernos, as possibilidades Humanas - sejam quais forem - ainda estão mais seguras se ancoradas na visão da Filosofia Cristã do que nas alternativas ideológicas disponíveis.

domingo, 30 de março de 2014

Metafísica Básica III - O Imperativo Ontológico

Metafísica Básica III - O Imperativo Ontológico 

Por Acauan 

O que é, é, sendo impossível ao que é, não ser. 

Podemos chamar este princípio, justificado por autoevidência, de Imperativo Ontológico. 

Os antigos hebreus o identificaram intuitiva e teologicamente ao registrar um Deus que se identificava como "Eu Sou!", a afirmação pessoal do Imperativo Ontológico. 

Aristóteles o deduziu filosoficamente nas conhecidas regras da Identidade, Não Contradição e Terceiro Excluso. 

A Modernidade criou o Relativismo, a negação do Imperativo Ontológico que prega que o que é pode não ser. Assim como o Imperativo Ontológico se afirma por autoevidência, o Relativismo se nega pela autocontradição (se o que é pode não ser, isto inclui este princípio, que assim, deixa de sê-lo).

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O Gigante Adormecido e o Gênio na Garrafa



O Gigante Adormecido e o Gênio na Garrafa.

Por Carlos Acauan
20 de junho de 2013

A frase do momento é o Gigante acordou.
Combina com a animação e otimismo das manifestações pacíficas.
No retrospecto até agora, um grupo inexpressivo convocou protestos contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, a Internet amplificou o movimento para além do controle de qualquer liderança, a onda se espalhou pelo país e as autoridades voltaram atrás.

Mais ou menos como na historinha do Gênio na garrafa.  Um cara qualquer liberta o Gênio, o Gênio o ameaça, é contido e concede três desejos.

Tal qual o Gênio, o movimento se expandiu rápido, perdeu liderança e ameaçou degenerar para violência sem controle. Não que a liderança original fizesse muita falta. O Movimento Passe Livre que pleiteia a gratuidade do transporte público é cria do Fórum Social Mundial.  Aquela turma que quer construir um mundo melhor tendo Cuba como modelo.

Assisti entrevista com um representante do MPL, um jovem mais parecido com os que encontramos às pencas nos corredores das Faculdades de Ciências Sociais do que com qualquer modelo de líder inspirador.

Movimento forte com liderança fraca atrai os predadores políticos como gnus doentes atraem as hienas para a manada. Logo as rubras bandeiras deflagradas na multidão ganharam seu minuto de visibilidade. No espírito do momento, as tais bandeiras foram repudiadas e enfiadas no saco. 

A mensagem do povo reunido nas ruas foi contundente:
A única bandeira que nos une e representa a todos é a Bandeira do Brasil. 
E fora com as bandeiras que nos dividem.
Pela primeira vez em tempos, manifestações públicas não eram capitaneadas por interesses ideológicos mesquinhos de minorias organizadas que falavam em nome do povo sem seu aval. Foram caladas pelo povo falando por si.

A redução das tarifas é uma pauta objetiva e justa.  Quem depende de transporte público em São Paulo tem que se submeter à humilhação de disputar lugar em um serviço ruim e caro. O mínimo que se espera de quem administra a cidade e de quem detém a concessão do serviço é que garantam que os usuários sejam respeitados pelo que são: cidadãos e clientes pagantes.

O Gênio solto nas ruas ameaçou destruir tudo, mas terminou atendendo nosso desejo e teremos ônibus, metrô e trens a R$ 3,00 em São Paulo.
Cabe às autoridades explicar se tal tarifa era factível por que não a mantiveram antes dos protestos e se não por que a concederam depois.

E agora?
O Gênio voltará para a garrafa, se rebelará contra seus libertadores ou continuará realizando nossos desejos?

Nas Mil e Uma Noites os Gênios tinham poderes ilimitados.
E muitos viram as manifestações de rua como solução mágica para todos os problemas brasileiros. O povo unido lutando não por centavos, mas por direitos, abandonando a acomodação, construindo um país melhor e mandando seu recado para os políticos.

Para que nossa Democracia saia fortalecida deste episódio, suas lições devem ser aprendidas.

Protestos que acusam todos os políticos não assustam os corruptos que, protegidos no anonimato genérico, simplesmente planejarão estratégias para tirar vantagem das manifestações que visavam denunciá-los. Logo, logo vários destes corruptos encontrarão uma fórmula de propaganda para tentar tirar alguma vantagem dos acontecimentos.

E estejamos preparados.
Aqueles que tiveram seus estandartes escorraçados da manifestação popular já preparam a revanche.  Não admitirão tão fácil que o povo possa se manifestar sem seu cabresto partidário.

Apesar disto, um importante recado foi transmitido aos governantes. Se os índices de aprovação do governo são tão bons quanto as estatísticas dão a entender, por que então toda aquela gente saiu às ruas para protestar?  Isto dará aos partidos no poder o que pensar até 2014.

Se traduzirmos tudo que as ruas disseram, da linguagem romântica do otimismo juvenil para um resumo objetivo, o pedido que estamos fazendo ao Gênio é que os poderes instituídos sirvam ao povo ao invés de se servir dele.

Esta conquista não virá num passe de mágica.
Nenhum Gênio saído da garrafa nos concederá como povo o que não fizermos por merecer.

As ruas podem cobrar dos políticos um Brasil melhor, mas só poderão materializá-lo se a participação popular incluir, mas não se restringir às manifestações pacíficas de massa.
Felizmente podemos e devemos dispor dos meios de participação política que a democracia e a moderna tecnologia disponibilizam para apontar problemas, propor soluções, cobrar resultados e fiscalizar os governantes.

O Gigante desperto tem muito trabalho a fazer.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Tabuleiro de Xadrez

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 16 de fevereiro de 2013, 18h45min


Se por algum destes motivos mais fáceis de encontrar na ficção, a última relíquia da civilização humana encontrada intacta por alienígenas inteligentes fosse um jogo de xadrez completo, que conclusões tirariam daquele conjunto de tabuleiro e peças?

O desenho geométrico do tabuleiro define um padrão matemático facilmente identificável.

Assim como pisos e azulejos.

Qual a probabilidade de que estes alienígenas, por mais avançados intelectualmente que fossem, deduzissem corretamente as regras do jogo de xadrez a partir da evidência material disponível?

Toda Ciência naturalista se fundamenta em observações de fenômenos. A partir das observações são desenvolvidas teorias que explicam os fenômenos observados e experimentos que testam as teorias.

A observação das peças e tabuleiro de um jogo de xadrez pode evidenciar a habilidade artesanal ou a tecnologia industrial utilizada na sua confecção. Peças torneadas por máquinas são facilmente distinguíveis de outras produzidas artesanalmente.

Pode-se tirar conclusões a partir dos materiais constitutivos das peças, se naturais ou sintéticos, avaliar sua idade através de métodos de datação e, por outros métodos, sua origem geográfica.

Ou seja, a competência técnica permite tirar muitas conclusões certas sobre o hardware do jogo de xadrez.

O problema é que nenhum método conhecido permite tirar conclusões sobre o software, a inteligência contida naquele jogo e que não é evidenciada por nenhum de seus elementos físicos constitutivos.

É impossível para quem nunca teve acesso às regras do xadrez deduzir que cavalos se movem em "L" e pulam outras peças ou que o Rei pode executar o movimento do "roque" uma única vez por partida.

Nenhuma teoria ou experimento poderia levar à reconstituição da dinâmica do jogo de xadrez a partir apenas da observação de suas peças e tabuleiro.

Se tal realidade existe para o jogo de xadrez, pode ser aplicável a outras evidências materiais que observamos e analisamos cientificamente.



sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre a cura divina

Publicado originalmente em 6/1/2005 14:22:55
por Acauan Guajajara 

O tema cura divina e o modo como é explorada por diversas instituições religiosas exige uma abordagem cuidadosa. 

Num extremo da questão temos doentes terminais, suas famílias e amigos, para quem a última esperança reside num milagre. Gente a quem não faremos bem algum se tirarmos deles o que lhes restou para se apegarem, esgotadas as possibilidades da medicina.

No outro extremo, vigaristas contumazes se aproveitam da fragilidade destas pessoas para obter proveito pessoal. 

Entre os dois extremos há uma zona cinzenta onde se misturam boas intenções e crenças sinceras de um lado e resultados que podem ir do inócuo ao desastroso do outro, ou ainda, combinações em diferentes graus de Fé verdadeira, desinformação e oportunismo, tudo isto fundido num cadinho perigoso onde a saúde do crente é, muitas vezes, reduzida a um instrumento de marketing para uso do proselitismo religioso.

Um exemplo elucidativo são as inúmeras alegações de cura da AIDS, vindas tanto de católicos carismáticos quanto de evangélicos de diversas vertentes. Não vou tratar aqui de curas reivindicadas por curandeiros avulsos, místicos ou esotéricos vários, já que meu objetivo é observar como instituições oficialmente estabelecidas lidam com este problema.

Nunca houve no mundo todo, um único caso de cura da AIDS comprovado, documentado e divulgado. 

Se houvesse, publicações especializadas como The New England Journal of Medicine, publicado pelo Massachusetts Medical Society, uma das mais respeitadas publicações médicas do mundo, dedicariam infindáveis páginas a esta ocorrência, despertando a atenção de toda a comunidade médica para a divulgada cura, o que tornaria o paciente protagonista desta recuperação o centro das atenções da medicina mundial.

Alguém comprovadamente curado de AIDS seria certamente virado do avesso pelas equipes de pesquisa médica, que levantariam nos mínimos detalhes todos os fatores que poderiam ter sido as causas de tal cura como, medicação, D.N.A., alimentação, modo de vida, fatos incidentais correlacionáveis etc, até que estas causas fossem identificadas e seus mecanismos compreendidos.

Que fique claro que a definição médica para cura da AIDS é a total e completa eliminação do vírus HIV do organismo até então infectado. Como Síndrome de Imuno-Deficiência Adquirida, a AIDS se manifesta na forma de infecções oportunistas, sendo que a cura destas infecções ou mesmo variações nos quadros sintomáticos não significam a cura da doença. 

Não obstante as questões colocadas acima, relatos de cura divina da AIDS obtidas por igrejas são mais comuns que pipoca em cinema, sendo que estes abundantes casos parecem passar completamente despercebidos da comunidade médica internacional, que por desinformação asinina, conspiração ateísta ou ação do diabo, continua acreditando que até hoje ninguém foi curado. 

As alegadas curas de AIDS são um exemplo notório da discrepância gritante entre as alegações de curas e os fatos médicos registrados. 

Mas existem outras muitas situações menos dramáticas, mas igualmente esclarecedoras, como a profusão de aleluias por conta das inúmeras “curas milagrosas” de cistos de ovários, que teriam desaparecido sem deixar vestígios, mostrando o poder de um Deus tremendo para embasbacados médicos ímpios. 

Não consigo imaginar um médico de verdade, ímpio ou crente, ficando embasbacado com o desaparecimento de um cisto, já que, na maioria dos casos, é natural e esperado que eles desapareçam por regressão espontânea, seja a paciente uma serva de Deus, de outro ou de ninguém. 

E temos também as curas de câncer. Quase sempre citadas pelo seu nome genérico, muitas vezes sem entrar em detalhes como se o câncer curado era um melanoma inicial, curável, com tratamento correto, em quase 100% dos casos ou uma metástase cerebral. 

Quanto a este último caso, gostaria muito que alguma igreja comprovasse uma única ocorrência de cura. Sinceramente ficaria feliz se alguém provasse que é possível fazer desaparecer cinco tumores do tamanho de uma laranja do cérebro de alguém (e o paciente continuar vivo, óbvio). 

O resumo da ópera é que há evidências mais que suficientes para se concluir que as alegações de cura divina por igrejas são, no mínimo, exageradas. 

Mesmo assim, várias delas exibem um caudaloso aparato de provas dos milagres e graças obtidos por suas orações, das quais sempre constam atestados médicos, cadeiras de rodas abandonadas ou radiografias de antes e depois. O engraçado é que a opinião circulante nestes meios, trombeteada ou à boca miúda, é que só os “nossos” atestados médicos, cadeiras de rodas ou radiografias são provas incontestes da ação divina. Os atestados médicos, cadeiras de rodas e radiografias da igreja concorrente são sempre falsificações grosseiras destinadas a enganar os ignorantes. 

É isto ou existe algum evangélico que acredita que Nossa Senhora Aparecida curou alguém? Se relíquias dos supostos curados valem, aquela basílica enorme perto da Via Dutra está abarrotada delas. 

E os atestados médicos? Alguém aqui sabe o que é Xantogranuloma juvenil? 

Pois é, também não sei, mas sei que esta doença, seja lá o que for, “freqüentemente regride espontaneamente”, segundo quem entende. Sem conhecimento especialista para avaliar atestados médicos que digam que alguém se curou de Xantogranuloma ou de qualquer outra coisa, eles nada provam. E é óbvio que qualquer médico que se dispor a levantar a veracidade destes milagres será imediatamente taxado de escarnecedor ateu ou algo que o valha antes de ter chance de fazer a primeira pergunta. Por que algum médico sério pagaria este mico? 

É nesta hora (talvez antes) que alguém diz – E o que você tem com isto? Se não acredita que estas pessoas são curadas o problema é seu, deixe-as em paz. 

Não acredito e nem deixo de acreditar. Mesmo porque não é o que se acredita que está em jogo aqui, mas a saúde de pessoas que podem deixar de procurar tratamento médico adequado por crerem que foram ou serão curadas por Deus com a ajuda de seus representantes, ou servos, ou seja lá como chamam a si mesmos. 

Igrejas tradicionais e clérigos esclarecidos costumam orientar seus fiéis a não trocar o tratamento médico pela espera de um milagre. Mas igrejas tradicionais são minoria. Clérigos esclarecidos, verifiquem. Quem duvidar que conte o número de esquinas em que se acha uma porta de igreja anunciando curas milagrosas no varejo, inclusive com dias e horários especiais para isto. São estas promessas de curas que atraem e mantém parte do rebanho destas igrejas e embora não seja possível precisar quantos, sempre haverá um responsáveis por elas que verão no hospital e no médico concorrentes a serem afastados. 

Quem, como eu, já ouviu a frase “doença é uma vergonha no povo de Deus, eu não vou em médico” (sic), sabe do que estou falando.

sábado, 15 de setembro de 2012

Breves - Dos Diários de um Índio Viajante IV

Por Acauan Guajajara

Breves. 

Em um outro lugar tórrido nos trópicos. 

1. Hora do almoço. A Igreja Matriz da cidade fica em frente ao meu local de hospedagem. Lugar ideal para conhecer um resumo da cultura do lugar. Só tenho que atravessar a rua e andar meio quarteirão sob o Sol. 

Desisto. 

2. Na praça da Matriz há uma redoma de vidro protegendo uma pequena motocicleta. Imaginei que fosse algum tipo de rifa, mas estando embaixo da estátua do Frei que dava nome à praça, me ocorreu ser algum tipo de relíquia católica. 

Era. 

3. Voltando. 
O Aeroporto Internacional do Galeão no Rio de Janeiro é uma zona. 
O Aeroporto de Congonhas em São Paulo não é.



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Madeira Mamoré e a Ira de Tupã, dos "Diários de um Índio Viajante III"

Por Acauan Guajajara

1. A Obra do Homem


Falando aos construtores, destaco o significado grandioso de sua obra. Quando chegaram, a Floresta e o Rio imperavam sob aquele Sol. Confrontados por nossa determinação e nossa Ciência, a Floresta infinita recua e o poderoso Rio nos obedece. As terríveis forças da natureza se submetem ao poder de nossa vontade.

Tupã ouviu...

2. O Sol

Desde minha chegada minhas movimentações tem sido de um local refrigerado para outro, meios de translado inclusos. As exposições diretas ao Sol equatorial são muito breves, porém suficientes para me fazer entender como os vampiros se sentem. Boto a cara sob o Sol do meio dia e queimo como Cristopher Lee ao invés de brilhar como Robert Pattinson. Só arrisco uma maior exposição ao final da tarde, como Frank Langella.

n.A. (nota do Acauan) 1: Quem não entendeu a referência a Frank Langella pesquise "Drácula – 1979".

n.A. 2: Quem não entendeu a referência a Cristopher Lee não merece maiores explicações.

4. O Pezinho de Bebê

Morte inglória seria sair de São Paulo para ser atropelado em Rondônia, expectativa que vislumbro a cada travessia de rua. A administração local encontrou sua própria solução para o desrespeito à faixa de pedestres não as pintando, o que elimina o problema e economiza tinta. O trânsito de Porto Velho lembra em alguns aspectos o de Roma, noutros o de Calcutá, sem o charme romântico-cultural da Cidade Eterna e sem seja lá o que for que Calcutá tem de bom. Uma única motocicleta transportando a família inteira, mesmo que grande, é cena comum. Em uma destas avisto um delicado pezinho humano espremido entre o condutor e a mulher na garupa, que segurava o bebê com um braço enquanto tentava segurar a si própria com o outro. Isto em plena hora do rush, quando o trânsito local assume características quânticas de caos não determinístico. Que Monã proteja aquela criança, porque dos pais não dá prá esperar grande coisa.

5. A Força Nacional

Um bando de brucutus de farda foi instalado na obra, para garantir a segurança após alguns tumultos. Por um azar danado também estão instalados no meu hotel. O café da manhã tropical seria bem mais agradável se o cara na minha frente na fila do bufê não mantivesse a submetralhadora a tiracolo apontada pro meu queixo.

6. Um Suspiro de Civilização

Faço a caminhada de fim de tarde. Tão longa que seu upgrade seria uma peregrinação. Então, a civilização suspira. Chego à choperia. Concordo que associar choperia a "suspiro da civilização" é exagero piegas, mas passem a semana que passei aqui e depois me contem como chamariam. Além disto, não se trata de uma choperia qualquer. É uma microcervejaria gastronômica, ou seja, um restaurante que mantém a vista do cliente uma unidade industrial de fabricação de cerveja, que produz a bebida servida na casa. São Paulo teve uma destas certa época, daí o tratamento cerimonial dado a algo que se perdeu tão perto de casa e se reencontrou tão perto da selva.

7. As Três Marias

Três Marias é o apelido das Três Caixas d'Água, situadas na praça de mesmo nome. Sigo caminhando prá lá, depois que as rodadas de chope e comida não regional deram um descarrego nas tensões entre mim e Porto Velho.
As Três Caixas d'Água me despertam uma impressão dúbia.
Primeira e mais óbvia: De fato, são três caixas d'água. E daí?
Depois surge algum reconhecimento de que a praça tem personalidade, que as Caixas d'Água estão ali desde que a cidade era uma aldeia no meio da floresta, que por décadas foram o principal ponto de referência da região, além de abastecê-la de água, utilidade prática que a maioria dos monumentos não possui.
Resolvo incluir Porto Velho na minha série fotográfica "Noturnos Urbanos". A Igreja Matriz rende bons cliques. Prá poder dizer que naquela noite andei até o limite do que a cidade tinha de interessante, estico o percurso até as margens do Madeira, onde um Café oferece uma bela vista do rio.

8. Madeira Mamoré

Domingo. Volto à margem do Madeira para um típico programa de turista. Passeio de barco no rio, visita ao museu a céu aberto da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e compra de artesanato indígena.
Aliás, um dos poucos lugares turísticos em que o artesanato indígena é vendido por Índios que são mais Índios que eu. Além de ter qualidade artística, outra coisa rara. Pergunto sobre a tribo deles. São karitianos. Sua língua ancestral foi preservada. Tem sonoridade algo parecida com o idioma klingon, o que confere autenticidade aos produtos vendidos.

9. Um Oficial e Cavalheiro

Volto ao Café onde conheço um tenente da engenharia do Exército Brasileiro, afastado do serviço ativo por conta de um acidente que o incapacitou. Seus modos em público incluíam chamar a garçonete com assobios altos, passar cantadas vulgares em qualquer mulher bonita que lhe cruzasse a linha de visão e insistir com cantadas mais vulgares depois de rechaçado. Um autodidata no quesito, já que não ensinam estas coisas nas Agulhas Negras.

10. A Fúria de Tupã

Como disse no começo, Tupã ouviu meu comentário sobre termos submetido as forças da natureza.
E Não gostou.
Quando Tupã não gosta de alguma coisa, demonstra isto de modo nada sutil, mas muito eficiente e logo enfrento minha primeira tempestade tropical.
Curti adoidado. Não era isto que Tupã tinha em mente quando enviou o toró, o que o motiva a radicalizar o discurso. O vento arranca parte do tronco de uma árvore a poucos metros de mim e o lança sobre um coqueiro, bem ao lado da mesa em que eu estava antes da chuva. Continuo assistindo a cena como um espetáculo, mas entendo o recado de Tupã e não me arrisco a irritá-lo mais.
O rio, a floresta e o resto do mundo desaparecem atrás de uma cortina branca de água e ressurgem em um gran finale, surpreendentemente anunciado por nosso folclórico oficial da engenharia "- veja, nossa bandeira, motivo de orgulho para todos nós". Desfraldada pelos últimos ventos da tempestade, a Bandeira do Brasil tremulava altiva, reduzindo a Floresta, o Rio e a Obra do Homem a pano de fundo de sua presença.