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sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre a cura divina

Publicado originalmente em 6/1/2005 14:22:55
por Acauan Guajajara 

O tema cura divina e o modo como é explorada por diversas instituições religiosas exige uma abordagem cuidadosa. 

Num extremo da questão temos doentes terminais, suas famílias e amigos, para quem a última esperança reside num milagre. Gente a quem não faremos bem algum se tirarmos deles o que lhes restou para se apegarem, esgotadas as possibilidades da medicina.

No outro extremo, vigaristas contumazes se aproveitam da fragilidade destas pessoas para obter proveito pessoal. 

Entre os dois extremos há uma zona cinzenta onde se misturam boas intenções e crenças sinceras de um lado e resultados que podem ir do inócuo ao desastroso do outro, ou ainda, combinações em diferentes graus de Fé verdadeira, desinformação e oportunismo, tudo isto fundido num cadinho perigoso onde a saúde do crente é, muitas vezes, reduzida a um instrumento de marketing para uso do proselitismo religioso.

Um exemplo elucidativo são as inúmeras alegações de cura da AIDS, vindas tanto de católicos carismáticos quanto de evangélicos de diversas vertentes. Não vou tratar aqui de curas reivindicadas por curandeiros avulsos, místicos ou esotéricos vários, já que meu objetivo é observar como instituições oficialmente estabelecidas lidam com este problema.

Nunca houve no mundo todo, um único caso de cura da AIDS comprovado, documentado e divulgado. 

Se houvesse, publicações especializadas como The New England Journal of Medicine, publicado pelo Massachusetts Medical Society, uma das mais respeitadas publicações médicas do mundo, dedicariam infindáveis páginas a esta ocorrência, despertando a atenção de toda a comunidade médica para a divulgada cura, o que tornaria o paciente protagonista desta recuperação o centro das atenções da medicina mundial.

Alguém comprovadamente curado de AIDS seria certamente virado do avesso pelas equipes de pesquisa médica, que levantariam nos mínimos detalhes todos os fatores que poderiam ter sido as causas de tal cura como, medicação, D.N.A., alimentação, modo de vida, fatos incidentais correlacionáveis etc, até que estas causas fossem identificadas e seus mecanismos compreendidos.

Que fique claro que a definição médica para cura da AIDS é a total e completa eliminação do vírus HIV do organismo até então infectado. Como Síndrome de Imuno-Deficiência Adquirida, a AIDS se manifesta na forma de infecções oportunistas, sendo que a cura destas infecções ou mesmo variações nos quadros sintomáticos não significam a cura da doença. 

Não obstante as questões colocadas acima, relatos de cura divina da AIDS obtidas por igrejas são mais comuns que pipoca em cinema, sendo que estes abundantes casos parecem passar completamente despercebidos da comunidade médica internacional, que por desinformação asinina, conspiração ateísta ou ação do diabo, continua acreditando que até hoje ninguém foi curado. 

As alegadas curas de AIDS são um exemplo notório da discrepância gritante entre as alegações de curas e os fatos médicos registrados. 

Mas existem outras muitas situações menos dramáticas, mas igualmente esclarecedoras, como a profusão de aleluias por conta das inúmeras “curas milagrosas” de cistos de ovários, que teriam desaparecido sem deixar vestígios, mostrando o poder de um Deus tremendo para embasbacados médicos ímpios. 

Não consigo imaginar um médico de verdade, ímpio ou crente, ficando embasbacado com o desaparecimento de um cisto, já que, na maioria dos casos, é natural e esperado que eles desapareçam por regressão espontânea, seja a paciente uma serva de Deus, de outro ou de ninguém. 

E temos também as curas de câncer. Quase sempre citadas pelo seu nome genérico, muitas vezes sem entrar em detalhes como se o câncer curado era um melanoma inicial, curável, com tratamento correto, em quase 100% dos casos ou uma metástase cerebral. 

Quanto a este último caso, gostaria muito que alguma igreja comprovasse uma única ocorrência de cura. Sinceramente ficaria feliz se alguém provasse que é possível fazer desaparecer cinco tumores do tamanho de uma laranja do cérebro de alguém (e o paciente continuar vivo, óbvio). 

O resumo da ópera é que há evidências mais que suficientes para se concluir que as alegações de cura divina por igrejas são, no mínimo, exageradas. 

Mesmo assim, várias delas exibem um caudaloso aparato de provas dos milagres e graças obtidos por suas orações, das quais sempre constam atestados médicos, cadeiras de rodas abandonadas ou radiografias de antes e depois. O engraçado é que a opinião circulante nestes meios, trombeteada ou à boca miúda, é que só os “nossos” atestados médicos, cadeiras de rodas ou radiografias são provas incontestes da ação divina. Os atestados médicos, cadeiras de rodas e radiografias da igreja concorrente são sempre falsificações grosseiras destinadas a enganar os ignorantes. 

É isto ou existe algum evangélico que acredita que Nossa Senhora Aparecida curou alguém? Se relíquias dos supostos curados valem, aquela basílica enorme perto da Via Dutra está abarrotada delas. 

E os atestados médicos? Alguém aqui sabe o que é Xantogranuloma juvenil? 

Pois é, também não sei, mas sei que esta doença, seja lá o que for, “freqüentemente regride espontaneamente”, segundo quem entende. Sem conhecimento especialista para avaliar atestados médicos que digam que alguém se curou de Xantogranuloma ou de qualquer outra coisa, eles nada provam. E é óbvio que qualquer médico que se dispor a levantar a veracidade destes milagres será imediatamente taxado de escarnecedor ateu ou algo que o valha antes de ter chance de fazer a primeira pergunta. Por que algum médico sério pagaria este mico? 

É nesta hora (talvez antes) que alguém diz – E o que você tem com isto? Se não acredita que estas pessoas são curadas o problema é seu, deixe-as em paz. 

Não acredito e nem deixo de acreditar. Mesmo porque não é o que se acredita que está em jogo aqui, mas a saúde de pessoas que podem deixar de procurar tratamento médico adequado por crerem que foram ou serão curadas por Deus com a ajuda de seus representantes, ou servos, ou seja lá como chamam a si mesmos. 

Igrejas tradicionais e clérigos esclarecidos costumam orientar seus fiéis a não trocar o tratamento médico pela espera de um milagre. Mas igrejas tradicionais são minoria. Clérigos esclarecidos, verifiquem. Quem duvidar que conte o número de esquinas em que se acha uma porta de igreja anunciando curas milagrosas no varejo, inclusive com dias e horários especiais para isto. São estas promessas de curas que atraem e mantém parte do rebanho destas igrejas e embora não seja possível precisar quantos, sempre haverá um responsáveis por elas que verão no hospital e no médico concorrentes a serem afastados. 

Quem, como eu, já ouviu a frase “doença é uma vergonha no povo de Deus, eu não vou em médico” (sic), sabe do que estou falando.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Ética Espírita – Parte 1

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 07/03/2008 às 22:49


A ética espírita é uma hipotética dinâmica cósmica na qual a providência divina, o livre arbítrio espiritual e o tempo interagem na cadeia de eventos da existência de modo a garantir que todos os espíritos criados igualmente simples e ignorantes evoluam até se tornar, todos, espíritos igualmente puros e perfeitos, quando desfrutarão de uma felicidade suprema e eterna.

Nesta dinâmica cósmica, a providência divina estabelece e sustenta a ordem metafísica, as regras do jogo, como a lei do karma – que determina que os espíritos devam passar por várias encarnações para expiar antigos erros e aprender - e a lei do progresso, segundo a qual os espíritos podem evoluir ou estacionar moralmente, mas nunca regredir.

Seguindo seu livre arbítrio, cada espírito submete-se ou não a esta ordem metafísica, às regras do jogo. Os que se submetem progridem mais rápido que os que não e alcançam em menor tempo a felicidade da perfeição.

O propósito final da dinâmica cósmica é dar à existência um sentido de justiça universal, erigida da igualdade e do mérito, conforme todos os espíritos devam se submeter à mesma ordem metafísica para progredir e alcançar a felicidade da perfeição.

Esta justiça universal resolveria questões em aberto de outras filosofias e teologias morais:

O problema do Mal – por que um Deus bom permite o mal;
A conciliação entre soberania divina e livre arbítrio humano;
As injustiças da vida – por que algumas pessoas nascem condenadas a uma vida de miséria, doença e sofrimento, enquanto outras levam uma existência tranqüila e prazerosa, por que coisas ruins acontecem a pessoas boas, por que pessoas ruins se dão bem no final etc.

Segundo o espiritismo:

Deus permite o mal como decorrência da ignorância primitiva na qual os espíritos foram criados, como pré-requisito para o exercício do livre arbítrio e para estabelecer os méritos individuais dos espíritos que, de livre arbítrio, optam pelo bem.

A soberania divina e o livre arbítrio humano se conciliariam pela vigência da dinâmica cósmica que faz com que o resultado final das decisões individuais tomadas de livre arbítrio seja o encaminhamento de todos os espíritos para a perfeição e felicidade, no tempo justo a cada um.

As injustiças da vida seriam provações necessárias ao aprendizado e evolução do espírito e expiação de faltas passadas. Dentro da dinâmica cósmica as tais deixariam de ser injustas, pois a seqüência de reencarnações tanto pode estabelecer uma igualdade geral entre as existências individuais - quem foi pobre, doente ou sofredor em uma vida pode ser rico, saudável e afortunado em outra e vice-versa, quanto os que porventura passam por mais experiências ruins do que boas poderiam aprender e evoluir mais rápido espiritualmente, reduzindo o tempo requerido para alcançar a felicidade da perfeição.

Muitos adeptos do espiritismo o são por tomar como satisfatórias as proposições acima, vendo nelas explicações melhores para estas questões do que as dadas por outras filosofias ou teologias morais.

Nem sempre esta adesão e satisfação passam pelo crivo de uma análise mais metódica da coerência intrínseca e extrínseca das proposições. No mais das vezes pesa mais o alívio emocional do acreditar ter encontrado as respostas pelas quais se ansiava, do que a certeza racional de tê-las provadas verdadeiras.

Uma análise inicial da dinâmica cósmica que fundamenta a ética espírita demonstra contradições e lacunas, no mínimo tantas e tão sérias quanto às das outras filosofias e teologias morais no que se refere às questões propostas do problema do mal, livre arbítrio e injustiças da vida.

Um primeiro problema é quando o espiritismo associa o mal à ignorância.
Admitida esta associação direta e exclusiva, o espírito ao longo do tempo se afastaria do mal na medida em que aprende e avança na dinâmica cósmica, até livrar-se dele por completo, por conta de ter aprendido o suficiente para tal.

Ora, a ignorância por si só não é boa ou má. É moralmente neutra.

Escolhas morais só se definem quando há consciência delas.
Nas teologias judaica e cristã esta consciência moral é simbolizada pelo fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, antes da tomada do qual o pecado não poderia existir.

O Livro dos Espíritos diz que os espíritos foram criados com igual aptidão, tanto para o bem, quanto para o mal e que os maus o são por vontade própria.

Ocorre que se os espíritos recém criados são plenamente ignorantes das questões morais e dotados de igual aptidão para o bem ou para o mal, diante de uma decisão moral se encontrariam inevitavelmente em um impasse imobilizador.

Não poderiam julgar questões morais a partir do seu próprio conhecimento, limitados que seriam pela tabula rasa de si próprios, e não poderiam reagir intuitiva ou instintivamente, dada a equivalência de aptidões para o bem ou para o mal.

Um espírito com estas características, totalmente ignorante e moralmente neutro seria incapaz de tomar decisões morais.

O Livro dos Espíritos diz que outros espíritos ignorantes são capazes de influenciar os de seu nível ou abaixo para o mal.

Além do já exposto que ignorância não é sinônimo de maldade, fica a questão de quem influenciaria estes espíritos ignorantes que influenciariam os outros.
Não há como resolver o problema sem uma regressão infinita, incompatível com a dinâmica cósmica que parte do princípio que os espíritos são criados.

Outra contradição pode ser identificada no conceito de hierarquia moral que os espíritos estabeleceriam entre si conforme progridem na dinâmica cósmica.

O Livro dos Espíritos descreve esta hierarquia em três ordens e dez classes, com ressalvas quanto a esta divisão não ser absoluta.
Na base estariam os espíritos impuros da décima classe, com o status moral análogo ao dos demônios, e no topo os espíritos puros e perfeitos de primeira ordem e primeira classe.

A contradição está em que se a lei do progresso impede os espíritos de regredir, temos que nenhum espírito poderia apresentar um status moral inferior àquele em que foi criado - simples, ignorante e igualmente apto ao bem ou ao mal.

Porém a descrição feita dos espíritos de décima ordem fala de seres inclinados ao mal, aos vícios, às paixões degradantes, que fazem o mal por prazer e ódio ao bem.
É claro que tais seres estão moralmente muito abaixo do que se poderia chamar de espíritos simples e ignorantes, igualmente aptos para o bem ou para o mal.

Assim, ou alguns espíritos recém criados que deveriam ser moralmente neutros em sua ignorância primitiva degeneram para uma condição moral análoga à demoníaca, violando a lei do progresso, ou os espíritos humanos são criados na condição moral análoga à demoníaca, violando o princípio de ser na origem simples e ignorantes.

Além disto, se todos os espíritos são criados iguais e se os de décima ordem são inclinados ao mal, de onde vem esta inclinação?
Não se pode dizer que do livre arbítrio, pois se todos os espíritos são criados igualmente ignorantes e com iguais aptidões morais seria de se esperar que seu uso do livre arbítrio apresentasse as mesmas inclinações.
A explicação da influência de outros espíritos inferiores também pode ser descartada como exposto acima, dado requerer uma regressão infinita para se sustentar.

Qual seria então o fator diferenciador que levaria alguns espíritos originalmente ignorantes e aptos tanto para o bem quanto para o mal a inclinar seu livre arbítrio para o mal, com a intensidade perversa relatada na descrição dos espíritos de décima classe, enquanto outros criados na mesma condição não o fazem.

Uma explicação possível seria que estes espíritos possuíssem vocação inata para o mal, teriam sido criados com ela, o que contraria o princípio da igualdade original na criação e derruba um dos pilares da justiça universal da dinâmica cósmica espírita que é justamente a igualdade geral das existências individuais, uma vez que alguns espíritos já seriam na origem melhores do que outros.

Outra é que esta queda para o mal é feita de modo completamente aleatório, com o espírito optando por este caminho a partir de decisões tomadas na cegueira de sua ignorância moral primitiva, o que implicaria que o acaso interfere na evolução dos espíritos, o que também contraria a dinâmica cósmica, como definida.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre a obrigatoriedade da crença

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 2/2/2005 17:36:51

A obrigatoriedade da crença é um dos pilares do Cristianismo e do Islamismo. Mais exigente no primeiro, devido ao dogma do único caminho e única verdade atribuídos a Jesus de Nazaré. Já a doutrina de Mohamed admite o Judaísmo e o Cristianismo como religiões verdadeiras, embora obsoletas em relação ao Islã. Posteriormente teólogos islâmicos admitiram o Zoroastrismo na lista.
Mas, tanto para Cristãos quanto para Muçulmanos, não acreditar no que suas tradições dizem ser verdades sagradas implica numa passagem só de ida e sem escalas para o inferno.

Isto não ocorre no Judaísmo por exemplo, onde a relação com Deus era uma conseqüência direta do sangue, conforme o pacto estabelecido entre Iavé e Israel através de Abraão. A crença judaica era tão intrínseca à nação que a professava, que sua própria identidade se desvanecia se apartada de sua herança teológica.

Desconheço a existência de outras religiões primitivas que condenassem explícita e prioritariamente a descrença.
O que era comum nestas religiões, depois de institucionalizadas nas sociedades que as adotaram, era condenar e punir a desobediência aos preceitos, as manifestações exteriores de desrespeito à autoridade da religião.

Isto faz sentido.
Desrespeitar preceitos é uma ação objetiva e pode ser aferida objetivamente.

Por que cargas d´água um legislador religioso iria acusar alguém de descrença se não é possível aferir no que realmente alguém acredita?
Além do mais, para as religiões pré-Cristãs, aparentemente a crença pessoal era irrelevante desde que não se demonstrasse na forma de rebeldia explícita contra a ordem religiosa estabelecida.

O Cristianismo e posteriormente o Islã invertem esta perspectiva.
A crença, mesmo que não aferível objetivamente, passa a ser a obrigação primeira do fiel, sem o que qualquer cumprimento dos preceitos religiosos estabelecidos, por mais zeloso que seja, é tido como absolutamente inócuo.

Mais ainda.
Ambas as religiões definem que a descrença nos fundamentos de sua doutrina, por si só, justifica a condenação ao sofrimento eterno no inferno. Os atos ou o valor pessoal deixavam de ter qualquer importância ou significado sem a crença obrigatória.
A descrença elevada à condição de crime passível de pena capital, no sentido teológico e, em várias épocas e lugares, também no sentido secular.

A Reforma Protestante ampliou a abrangência desta premissa.
No cânone Católico Romano, se a descrença levava necessariamente à danação eterna, a crença, por si só, não levava a lugar algum se não fosse acompanhada das outras virtudes teologais – esperança e caridade, além da obediência às regras de vida determinadas pela Igreja Romana.

Com Lutero e Calvino ocorre uma inversão de posições relativas às religiões pré-cristãs. Nestas, a crença era subjetiva demais para ser relevante por si só quando comparada à obediência aos preceitos e ritos. A Reforma Protestante executa uma troca de lugares, na qual a obediência aos preceitos e ritos passa a ser irrelevante e a crença, e apenas a crença, passa a ser considerada como o instrumento de obtenção da graça divina. A tal da salvação pela Fé e não pelas obras.

O Fundamentalismo Cristão tomará esta regra ao pé da letra, em todos os sentidos, através da defesa da inerrância e da interpretação literal da maioria das passagens da Bíblia, completando um ciclo que se inicia nas religiões tribais, cujos ritos eram centrados em objetos e símbolos visíveis ou de alguma forma tangíveis, como o Sol, passa pelo Judaísmo, onde os símbolos e objetos religiosos diluem-se na própria identidade nacional, abstrata porém reconhecível de modo inequívoco e atinge seu ponto de ruptura no Cristianismo Primitivo, uma crença em que os objetos e símbolos situam-se num mundo totalmente espiritual, invisível e intangível. O ciclo passa pela Reforma e se fecha no Fundamentalismo Cristão, num movimento que retorna gradativamente à uma crença que não sobrevive sem objetos e símbolos materiais, visíveis e tangíveis, no caso a Bíblia e, para os neo-pentecostais, a vulgarização do milagre.

Este ciclo talvez explique, em parte, o porquê de a descrença religiosa ter deixado de ser tabu no Ocidente a partir do século XIX e principalmente no século XX, consolidando uma tendência que, originada no Iluminismo Europeu, terminou por derrubar a idéia de obrigatoriedade da crença.

Tomando por exemplo os Astecas, que, como muitos povos primitivos, tinham o Sol como representação material da divindade, temos que estabelecer a obrigatoriedade da crença num Deus solar não era uma preocupação razoável para as autoridades religiosas da Confederação pré Colombiana.
Não acreditar no Sol não é heresia, é loucura. Ele está lá no Céu, materialmente visível para qualquer um que não seja cego ou demente.

Não faz sentido instituir a obrigatoriedade da crença em algo, cuja existência se revela de modo inegável por si mesmo.

Os Judeus também não tinham tal preocupação, já que a existência de Israel era por si só aceita como prova suficiente da existência de Deus, logo, bastava olhar em torno para se ver o monumento que dava materialidade à crença.

O Cristianismo rompe esta tradição.
Seu símbolo e objeto máximo de fé, o Cristo ressuscitado, é tido como onipresente pelo dogma, mas é invisível e intangível fora dele.

Se os pagãos associavam o Sol com o deus Apolo, resta aos Cristãos associarem seu Deus a um Sol espiritual, só visível pelos eleitos.
O que é um eleito vai mudar muito de tempos em tempos dentro do Cristianismo, da definição gnóstica até a calvinista, mas o ponto é que a nova crença não podia ser sustentada por símbolos e objetos visíveis por todos, como o Sol ou a nação.

Mesmo os milagres, repetidamente anunciados ao longo da História Cristã como objetos visíveis que dão veracidade às suas crenças, só são visíveis às suas eventuais testemunhas, que são sempre numericamente poucas para exercer sobre os não cristãos o mesmo poder de convencimento que o nascer e o pôr do Sol, com extrema confiabilidade, cuidava de exercer sobre os Astecas.

Assim, o Cristianismo se desenvolve como uma religião de objetos e símbolos imateriais, invisíveis e intangíveis, cuja confiança na existência deles só era corroborada pela opção de crença do fiel, que uma vez incluído no corpo dos crentes passa a tê-los como inquestionáveis, suprimindo de si a necessidade de que lhes sejam materialmente visíveis ou tangíveis.

É nisto que se baseia, principalmente, a institucionalização da obrigatoriedade da crença no dogma Cristão.
Se negar a existência do Sol era coisa de alguém física ou mentalmente insano, negar a existência dos objetos e símbolos invisíveis da crença Cristã primitiva deveria ser coisa de quem é moral ou espiritualmente insano.

Assim, a descrença se torna dentro do meio Cristão a marca do pária, do outro, um sinal do demônio a ser temido e combatido para que não contamine o corpo místico da Igreja.
Consolida-se desta forma o segregacionismo Cristão que associa a descrença ao Mal, seja este mal relativo, produto do desconhecimento do que entendem como verdades sagradas, ou absoluto, produto direto da ação do diabo.

Quando na Idade Média o Cristianismo se torna a ideologia dominante do Ocidente, ou, mais ainda, a identidade ideológica do Ocidente, a obrigatoriedade da crença se manifesta como requisito para a aceitação social.
Numa Europa onde o Cristianismo é a única corrente de pensamento que consegue ultrapassar fronteiras e estabelecer uma identidade comum entre comunidades isoladas de um mesmo povo ou entre vários povos hostis entre si, descrer no que é Cristão significa não possuir lugar nesta sociedade, sendo a descrença reprimida antes pela certeza do isolamento do que pelo medo da punição.

Daí o fato de a grande preocupação da Inquisição em seus séculos de ativa ter sido sempre a heresia e a falsa conversão. Nunca o ateísmo como praticado hoje.
A Igreja Cristã remodelou a civilização Ocidental conforme suas próprias crenças de tal modo que criou um mundo onde estas crenças, apesar de centradas em objetos e símbolos invisíveis e intangíveis, tornaram-se para o crente tão materialmente reais quanto eram as crenças nas divindades solares e a crença judaica no Deus de Israel, razão pela qual a repressão religiosa medieval em parte se assemelha àqueles modelos por punir antes a desobediência manifesta – heresia, falsa conversão, bruxaria e comportamento relapso – do que ocupar-se em aferir e condenar a descrença pessoal não manifesta publicamente.

Com a Reforma Protestante e a cisão da Igreja Cristã Ocidental, reforça-se a condenação formal da descrença como caminho da perdição, mas se mantém a relativa despreocupação com ela, dado os ritos e sinais da religião dominante serem presentes demais para serem ignorados, mesmo continuando invisíveis seus objetos e símbolos.
Ajuda nisto o Cujus regio, ejus religio, regra que obrigava os súditos dos principados alemães a professarem a mesma religião de seu monarca, o que preservava a presença ambiental da crença Cristã e reforçava seu status de fator de identidade social. Como exemplo, cite-se que até hoje é a religião o único fator relevante que distingue alemães de austríacos. Aqueles predominantemente luteranos e estes quase todos católicos romanos.

Enquanto isto, o Islã seguiu sua própria trajetória de ascensão e declínio como Império secular e religioso, diferenciando-se da Cristandade no modo como tratava a descrença por estabelecer uma legislação rígida e detalhada, a Sharia, onde os limites admissíveis da incredulidade eram claramente definidos e, além deles, era mais prudente ao incrédulo se conter do que arriscar. Judeus e Cristãos usufruíam de tolerância especial, embora sobretaxados e mantidos em graus diferentes de segregação conforme o local e época.

Mas o que define o Islã é sua teologia monolítica, imune à heresia e ao cisma, e a imersão completa que exige de seus fiéis no cumprimento de seus rituais, que, muito além do exercício privado, estendem seus preceitos para toda a vida pública da comunidade muçulmana.

De novo a situação em que os ritos e sinais da crença Islâmica por serem onipresentes, formadores de identidade e necessários à aceitação social fazem com que a descrença seja tida dentro da comunidade como a opção dos loucos que se recusam a ver o Sol.

Tanto entre os Cristãos quanto entre os Islâmicos, ninguém mais parecia se lembrar que o Sol em questão não era visível para ninguém, nem para eles próprios.

É o Iluminismo Europeu que cumpre este papel de apontar para o Céu e dizer que o único Sol visível lá é a estrela em torno da qual a Terra orbita.
A combinação dos avanços da Ciência Experimental e do racionalismo filosófico trouxe de volta a idéia, há muito abandonada pelos Cristãos, de que as crenças deles não eram uma realidade cósmica, mas opiniões institucionalizadas.

No campo político, as Revoluções Americana e Francesa criam o Estado Laico, que desvinculou a identidade nacional da religião, estabelecendo um ambiente público regido agora por leis e princípios civis e não teológicos.
Leis e princípios civis devem ser necessariamente objetivos, logo, a crença que por séculos foi necessária para garantir o entrosamento e a aceitação do indivíduo na sociedade perdeu subitamente esta condição privilegiada.

Crer ou descrer passava a ser uma questão de foro íntimo e uma escolha pessoal. E só.

A crença reassume sua condição de Fé e descrer deixa de ser loucura ou absurdo para se tornar apenas uma opção entre concluir conforme as evidências objetivas analisadas ou, desprezando estas, aceitar as crenças como dogmas, verdades reveladas.

Para os que optam pelo racionalismo, o século XIX oferece as opções do Darwinismo e do materialismo.
Invertendo a tradição de séculos passados, agora é a crença religiosa que é apresentada como absurda e, em alguns casos, louca, despertando reações desencontradas em segmentos cristãos, que ora invocavam as citações bíblicas que denunciam a sabedoria de Deus como inalcançável à razão humana, ora tentavam provar que a razão confirmava suas crenças melhor do que a própria Fé.

Neste cenário, a religião Cristã ocidental, com sua divisão protestante fragmentada em miríades de seitas e sua divisão Católica Romana una, porém presa à inércia de sua paquidérmica macroestrutura, tenta reagir ao avassalador avanço das novas ideologias, que amparadas pelo fascínio despertado pelo progresso técnico ocupam cada vez mais espaço na sociedade.

A Cristandade, que na época medieval era o amálgama ideológico do Ocidente e temia apenas a heresia, agora não podia sequer identifica-la em seu meio. O que era heresia para um segmento Cristão era o culto oficial de outro segmento e vice-versa.

Numa realidade em que a heresia não pode mais ser combatida ou sequer identificada, as lideranças Cristãs, sentindo-se acossadas pelo avanço do racionalismo, voltam a acusar a descrença, na forma do ateísmo, agnosticismo e materialismo de ser o grande fator de perdição moral e espiritual do Homem.

Dois mil anos depois, o Cristianismo volta às suas origens, quando tentava convencer pagãos e bárbaros de que as coisas invisíveis de que falava eram reais, usando como ferramenta de convencimento as promessas de recompensas idílicas para os crentes e de indescritíveis tormentos para os que se recusassem a acreditar.
Quando a Igreja Cristã dominou o Ocidente, não era mais preciso convencer ninguém, apenas manter e administrar a crença já consolidada e protege-la contra a heresia.

Agora, no novo e terrível cenário, os descrentes voltam a ser preocupação e sua recusa em dizer que vêem os objetos e símbolos invisíveis da crença Cristã não pode mais ser desdenhada como excentricidade de tolos, devendo ser combatida como amoralidade de ímpios.

Não mais capaz de atar suas crenças à âncora da unanimidade social, a reação Cristã tenta associar a descrença à imoralidade, ignorância, rebeldia ou a quaisquer outros valores negativos que desestimulem fiéis de apostatarem ou motive incrédulos a converterem-se.

O Fundamentalismo surge como um dos equívocos desta reação, tentando a via improvável de defender a obrigatoriedade da crença, não pelo apelo ao significado moral dos símbolos invisíveis do Cristianismo, mas pela tentativa de convencer o máximo possível de pessoas de que estes símbolos não só são visíveis como materiais, estando todos indicados ou representados na Bíblia, cujo conteúdo inerrante devia ser interpretado, na maioria dos casos, literalmente.

Com esta tentativa, os Fundamentalistas Cristãos tentam materializar os símbolos da crença. Mas não na identidade nacional, como foi em Israel ou na identidade social, como foi na Idade Média.
Eles tentam criar um culto cristão solar, colocando a Bíblia no lugar do Sol e apontando-a como se apontassem o nascente, toda vez que sua crença é questionada.
A diferença, nunca percebida pelos Fundamentalistas, é que o Sol brilha sobre crentes e descrentes, enquanto livros sagrados só iluminam os que neles crêem.

Seu cristianismo solar bíblico naufraga tragicamente na aventura insólita do Criacionismo Científico, que ansiava trazer de volta os tempos de primazia do pensamento Cristão, quando toda tentativa de nega-lo implicava em risco de ver seus argumentos expostos ao ridículo, destroçados pela sabedoria dos Escolásticos. Tudo que os fundamentalistas conseguiram foi fazer com que a crença travestida de Ciência se tornasse motivo de risos e comentários jocosos nas Universidades e centros do saber.

A obrigatoriedade da crença havia sido sepultada no Ocidente, e o Fundamentalismo Cristão assumiu o papel de jogar-lhe a pá de cal.

terça-feira, 29 de março de 2011

Sobre as Provas Metafísicas da Existência de Deus

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 26 mar 2011, 12:47


É recorrente em debates entre religiosos e ateus a citação por parte dos religiosos das chamadas provas metafísicas da existência de Deus, geralmente as Cinco Vias propostas por Sto. Tomás de Aquino, citação frequentemente acompanhada de um desafio à refutação ou alguma referência insultuosa à inteligência do interlocutor ateu por ousar não crer no que estaria tão definitivamente provado.

Também é recorrente em debates minimamente informados sobre a História das Idéias que o ateu cite as contestações à metafísica de Kant e Husserl, nominalmente ou não, recebendo as réplicas esperadas que por sua vez também podem ser postas em dúvida. Em seu status quaestionis o debate é inconclusivo e terminam as partes acreditando naquilo que optaram por acreditar.

Já nos debates de Internet, geralmente orientados pelo que responde a primeira página do Google sobre o tema em discussão, se nota que as citações disponíveis sobre as provas metafísicas são postas e rebatidas sem deixar claro se a lógica do debate é compreendida em seus princípios básicos.

O primeiro ponto que raramente vejo discutido nestes debates é o significado e abrangência do conceito de prova.
Provar uma afirmação é apresentar evidências e argumentos que demonstrem sua veracidade, com um grau de certeza suficiente para desacreditar os argumentos e evidências que propõem que a afirmação seja falsa.

Como uma prova é constituída de evidências e argumentos, a abrangência da prova é limitada à abrangência dos argumentos e evidências que a constituem.
Quanto mais abrangente é o que se intenciona provar, mais abrangentes devem ser as evidências e argumentos usados como prova, ou seja, a prova vale até onde sabemos válidos seus argumentos e evidências.

Assim, as únicas provas absolutas conhecidas são as matemáticas, uma realidade abstrata na qual a abrangência da prova contém o que se pretende provar sem incertezas ou possibilidades alternativas.

A metafísica por sua vez estuda a realidade concreta que percebemos visando uma compreensão de sua estrutura e funcionamento que nos permita tirar conclusões sobre aspectos desta realidade situados além de nossa percepção.

Obviamente, qualquer prova metafísica só é válida dentro da abrangência da metafísica, ou seja, até onde admitimos as premissas da metafísica como verdadeiras, sendo suas premissas essenciais tomadas da hipótese de que a realidade concreta é necessariamente coerente, isenta de absurdos e apreensível pela razão humana.

Na metafísica parte-se de um conhecimento e experiência finitos, tomando-se por verdadeiro que tal finito represente uma amostra significativa do total absoluto da realidade e, baseado em tal confiança, tira-se conclusões de abrangência infinita, como as provas da existência de Deus. Ou seja, a metafísica, tira conclusões sobre o todo a partir do que sabe sobre a parte.

Na matemática é perfeitamente correto tirar conclusões sobre o infinito a partir do finito. Não importa que a circunferência tenha infinitos pontos, bastam três pontos para definir exatamente todos os demais infinitos pontos constituintes.

A metafísica faz sentido para explicar uma realidade criada e mantida por uma racionalidade divina, o que torna esta realidade específica uma premissa metafísica e implica que conclusões metafísicas sobre a veracidade da ordem racional divina da realidade caem em petição de princípio.

É importante lembrar que nas Cinco Vias Sto. Tomás de Aquino não conclui diretamente pela existência de Deus e sim que a realidade observada necessita de certos elementos para sustentar sua coerência racional e associa estes elementos "ao que chamamos Deus", nas palavras do filósofo.

Pode-se dizer que as Cinco Vias não provam a existência de Deus e sim que apresentam a "hipótese Deus" como explicação racionalmente sustentável para a coerência do cosmo.

A "hipótese Deus" como apresentada pela metafísica não se configura como prova de existência por não eliminar outras hipóteses e por só ser válida dentro das premissas estritas de que a coerência cósmica tida como verdadeira pela metafísica seja um fato e não uma interpretação do observador humano.
Também não se sustenta como demonstração de veracidade da afirmação "Deus existe" e sim como solução teórica para o problema da racionalização da existência de Deus, pois demonstrar em tese que a existência de um suposto ser explicaria determinados fatos não implica que este ser de fato exista.

Esta questão não passou despercebida a Sto. Tomás de Aquino, que declarou explicitamente a superioridade do ontológico sobre o lógico ao criticar o argumento de Sto. Anselmo, que propunha provar a existência de Deus com um argumento que, em última instância, se revela apenas um jogo de palavras.

Provar entidades infinitas só é possível em uma realidade matemática ou similar à matemática, na qual as propriedades de uma fração finita são idênticas às propriedades do todo infinito.
Em qualquer outra realidade em que esta lei não seja válida, qualquer fração finita é insignificante diante do todo infinito e, portanto, nenhuma prova cujas evidências e argumentos estejam contidos nesta fração terão abrangência suficiente para demonstrar a veracidade do todo infinito que pretendem provar.

No mais, a razão mais elementar entende que o autoevidente dispensa prova.

Com o justo reconhecimento à sabedoria de Sto. Tomás de Aquino, todo o mais para além do autoevidente só encontra provas absolutas na Fé pessoal.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Meus Dez Locais Religiosos Favoritos em São Paulo

Por Acauan Guajajara
Publicado originalmente em 28/02/2006, às 21:18

Certa vez escrevi sobre as Igrejas Horrorosas

de São Paulo, lamentando que o casamento feliz entre beleza e arquitetura religiosa tivesse terminado em divórcio litigioso nas construções citadas. Mas os templos de uma grande cidade nos contam mais sobre ela do que os estilos e tendências que influenciaram suas construções. Eles nos falam sobre a História, cultura, diversidade e personalidade destas metrópoles. Por isto selecionei dez locais religiosos que, na minha opinião, formam a cara de São Paulo.

1º. Mosteiro de São Bento e Basílica de Nossa Senhora da Assunção
Largo de São Bento, s/nº – Centro


Quem leu o que escrevi anteriormente sobre o Mosteiro de São Bento não se surpreendeu de encontrá-lo no topo desta minha lista. O conjunto arquitetônico (mosteiro, basílica, colégio e faculdade) se integram perfeitamente à paisagem formada pelo Largo São Bento e o viaduto Santa Efigênia – a passarela que é uma jóia da engenharia paulista. Ouvir as batidas de seu grande carrilhão nas horas cheias significa saber exatamente onde se está.

2º. Catedral da Sé
Praça da Sé - Centro


Já que falei em mostrar a cara de São Paulo, ei-la. O sisudo estilo gótico, imitando as grandes catedrais européias, a imponência da cúpula e das torres altas, a praça e edifícios à sua volta, o marco zero da cidade sob sua sombra, a maior estação de Metrô do país sob seus alicerces e as gentes que circulam por tudo isto fazem da Catedral da Sé e seus arredores um resumo do que esta cidade é. Gosto particularmente da cripta, lugar que poucos paulistanos visitam, onde estão os restos mortais do Cacique Tibiriçá e outros personagens solenes. Talvez nem todos saibam, mas o projeto original, cuja construção foi iniciada em 1913, só foi concluído recentemente, com a entrega das torres laterais visíveis na foto.

3º. Mesquita Brasil
Avenida do Estado, 5.382, Cambuci


É a primeira mesquita construída no Brasil. Mas não precisavam ter posto um luminoso enorme em frente ao prédio informando isto, o qual quebra a requintada harmonia do conjunto, já muito prejudicada pelos altos muros do entorno, erguidos depois que vândalos picharam suas paredes. Apesar destes pequenos inconvenientes, a Mesquita Brasil é um dos mais belos templos de São Paulo, com seus minaretes preservando esmeradamente a melhor herança artística do Islã.

4º. Sinagoga Beth-el
Rua Martinho Prado, 175 – Consolação


A primeira vez que vi as formas incomuns daquele prédio, a partir de certa distância nos arredores da Praça Roosevelt, de imediato pensei que devia tratar-se de uma sinagoga, mesmo à época não tendo nenhuma noção embasada de como uma sinagoga deveria parecer. Isto que é ter personalidade, identificar-se de modo correto apenas com a própria presença. A sinagoga abrigará o Museu Judaico, uma excelente oportunidade para os que quiserem conhecer mais sobre esta cultura que é uma das fontes da nossa própria.

5º. Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados
Praça da Liberdade, 345 - Liberdade


Falei bastante desta igreja quando descrevi minhas observações sobre as Religiões da Liberdade, no caso o bairro onde a também chamada Igreja das Almas se encontra. Hoje ela está mais light, com camadas de tinta clara cobrindo o antigo cinzento que lhe dava uma cara tão sinistra quanto as histórias sobre as almas dos que, no passado, foram enforcados naquele local e permaneceriam circulando por ali. Mas sua principal característica é que apesar de ser uma Igreja Católica Romana, seu velário é um local de culto sincrético, onde cristianismo e cultos afros compartilham o espaço com respeito mútuo e tolerância. Pensando bem, um local onde há tolerância e respeito não pode ser tão sinistro assim.

6º. Catedral Metropolitana Ortodoxa
Rua Vergueiro, 1515 - Paraíso


O nome do bairro o torna perfeito para sediar a catedral que domina a paisagem do Paraíso. Sempre achei aquela igreja enorme, o suficiente para alojar toda a comunidade ortodoxa de São Paulo, mas li em algum lugar que é uma réplica oito vezes menor da catedral de Sofia. Esta sim deve ser enorme. Suas cúpulas douradas são um destaque, principalmente quando recuperam seu brilho, logo após as limpezas periódicas que removem delas as camadas de fuligem. Pena que a realidade urbana de São Paulo não permita que o brilho dure muito tempo.

7º. Capela Padre Anchieta
Largo Pateo do Collegio s/nº – Centro



O fato de se tratar de território Jesuíta sempre me deixa um tanto apreensivo de circular por ali, afinal um Índio não catequizado dando sopa pode inspirar a turma a querer terminar o serviço começado há quatrocentos e tantos anos. Mas, descontada esta ressalva pessoal, é sempre inspirador estar onde tudo começou, sendo o tudo referido a cidade de São Paulo. Os visitantes também podem reviver um costume antigo das Igrejas Católicas Romanas, um tanto abandonado hoje, que é a guarda de ossos de santos como relíquias. Na capela um pedaço do fêmur do padre José de Anchieta encontra-se em exposição.

8º. Federação Espírita do Estado de São Paulo
Rua Maria Paula, 140 - Bela Vista


A primeira vista o prédio da FEESP não parece a sede de uma organização religiosa. Na segunda e na terceira também não. Quem passa pelo prédio próximo à Câmara Municipal e não lê a identificação na entrada o toma por mais um conjunto de escritórios. Discreto e funcional, bem no jeitão dos espíritas. Uma vez circulei por seus corredores enquanto esperava uma amiga que fazia um curso lá. Perdi-me e fui sair num lugar onde ministravam passes. Preferi tomar os passes a admitir minha condição de perdido. Como dizem, mal não deve fazer.

9º. Catedral da Independência da Assembléia de Deus
Av. Dr. Ricardo Jafet, 214 – Ipiranga


Citei esta entre as Igrejas Horrorosas, quando a descrevi como sendo "feita de pedaços de estilos sem qualquer relação entre si e virados do avesso". Bem, foi um modo um tanto cruel de dizer a verdade. A inclui nesta lista porque, questões estéticas a parte, hoje seria difícil imaginar aquele pedaço do Ipiranga sem o seu, digamos, eclético relógio octogonal rotativo. Se bem que gostava mais dela quando era cinzenta. Parece que está na moda dar uma nova cara às igrejas sinistras as pintando em tons pastel.

10º. Santuário do Sagrado Coração de Jesus
Largo Coração de Jesus 154 – Campos Elíseos


Esta igreja é a melhor resposta aos anseios de pelo menos dois grupos. Noivas e interessados em uma aula grátis sobre estilo clássico-renascentista. Um estilo tão notavelmente perfeito em sua composição que apreciadores mais puristas se sentem intimidados em entrar e desequilibrar o conjunto. As colunatas de mármore são impressionantes, servem como a melhor via de tráfego do olhar que parte do piso ornado para os afrescos do teto, passando pelos detalhes ornamentais, lustres e pelo órgão de tubos que completa a solenidade do ambiente. Como disse alguém, a mais perfeita tradução de uma bonita igreja de São Paulo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Roma, a religião da república sagrada

Comentários sobre a série da HBO

Por Acauan Guajajaa

Publicada originalmente em 17/01/2006 às 16:22

A série televisa Roma (EUA, 2005, co-produzida pela HBO e BBC) é um primor de reconstituição histórica, que mostra a vida na capital do Império no tumultuado período desde a conquista da Gália por Caio Julio César em 52 A.C. até seu assassinato em 44 A.C., levado a cabo por uma conspiração de senadores. Neste período, da narrativa principal, que conta como César subjugou o senado e conquistou o poder absoluto, derivam outras secundárias que retratam o cotidiano da aristocracia e da gente comum da Roma de então.

A perspectiva dos comuns é abordada do ponto de vista de dois fictícios personagens, o legionário Tito Pullo (Interpretado por Ray Stevenson) e o centurião Lúcio Voreno (Interpretado por Kevin McKidd), este um guerreiro totalmente dedicado à sua corporação, a décima terceira Legião, com a qual César bateu Vercingétorix (é, aquele do Asterix) e tomou o rumo do Rubicão.

Voreno, na série, é descrito por Marco Antonio como um muro de pedra catoniano, uma referência aos romanos que seguiam o modelo de conduta e vida de Catão, o censor que encarnava o espírito de austeridade, severidade e honra da antiga República.

A religião de Voreno e de Roma era essencialmente uma religião cívica, na qual não havia diferença entre pecado e não cumprimento dos deveres de cidadão, entre confrontar as instituições e sacrilégio ou entre ofender a República e ofender os deuses.

A República Romana, para os cidadãos que guardavam seus antigos valores, era mais do que uma entidade política, era um intermediário entre os deuses e os homens. Uma entidade erigida por estes, mas imortal como aqueles. Este amálgama entre o civil e o sacro na consciência religiosa romana é abordado no conflito íntimo que se instala em Lúcio Voreno quando César convoca suas tropas para marchar a Roma, contra as ordens do senado. Para o centurião o ato de César é um sacrilégio, cujo destino final teme ser a destruição da República e a instalação da tirania. Mas os mesmos valores e princípios que o fazem se opor às decisões de seu comandante o obrigam a obedecê-las.

O paganismo de Estado dos romanos se mostra em Voreno nas suas diversas facetas. Em uma cena cheia de compenetração sensível o catoniano oferece seu sangue a Vênus, pedindo à deusa que sua esposa o ame tanto quanto ele a ama, uma vez que sua dureza de soldado o impede de expressar seus sentimentos diretamente a ela. Em outra, quando indagado sobre o número de homens que matou, o centurião fornece com frieza uma contagem precisa dos guerreiros mortos (os civis ele não contava), cujo número era oferecido como tributo a Marte, deus da guerra. Voreno também protagoniza alguns rituais específicos, como o banquete oferecido a Janus, o deus das portas, para que este favoreça uma iniciativa comercial, e o ritual de fertilidade, no qual ele e a esposa simulam um ato sexual em meio às terras de sua propriedade, visando torna-las fecundas.

Um contraponto interessante à religiosidade cívica rígida e sincera dos catonianos é apresentada na série no episódio 4, Stealing from Saturn, na qual César, para legitimar seu poder, precisa de um sinal de bons auspícios que deixasse claro que os deuses apoiavam sua tomada do poder absoluto. Ele consegue isto subornando os sacerdotes do Collegium Pontificum, que por uma vultosa quantia aceitam providenciar a aprovação divina durante a sagração de César como ditador romano.

É também através de Lucio Voreno que podemos observar o modo sutil, mas muito minucioso, como a série nos apresenta a desconfortável crueldade reinante na ausência dos valores cristãos que só conquistariam o Ocidente alguns séculos depois.

Em uma cena particularmente chocante, o centurião vai tratar a venda dos escravos que recebera como espólio na campanha da Gália, deixados sob a guarda de um mercador que deveria engordá-los visando melhorar seu preço. Quando pergunta pelo estado de suas mercadorias, é conduzido pelo mercador à jaula minúscula onde estão os corpos putrefatos dos prisioneiros, que morreram de disenteria. O único sobrevivente é um pequeno menino, mantido preso junto ao cadáver da mãe e dos demais para que o proprietário pudesse comprovar por si mesmo que seu patrimônio não fora roubado.

O centurião trava um desesperado diálogo com o mercador, no qual lamenta a dimensão de seu prejuízo. Para o espectador estupefato fica a terrível dúvida de o porquê ninguém ligar a mínima para as pessoas mortas, principalmente, para a criança aprisionada junto aos restos apodrecidos de sua mãe e parentes.

Por que Lúcio Voreno, um homem íntegro e abnegado, se mostrava tão impiedoso?

A resposta simples é que a piedade cristã só seria divulgada quase um século depois do tempo daqueles eventos narrados. Para os romanos, os vencidos escravizados eram apenas isto, vencidos escravizados. Suas vidas e mortes tinham o valor exato de seu preço de mercado ou de sua serventia para o trabalho. Na ausência dos preceitos cristãos que viriam a criar o conceito de pessoa humana com valor em si mesma, os romanos avaliavam o quanto valia uma vida pela sua posição na hierarquia de sua sociedade. Não havia como ou porque naquele sistema reconhecer qualquer tipo de igualdade entre um cidadão romano livre e quem não o era.

Apesar de toda identificação da República Romana e seus valores como a manifestação mais visível dos desígnios dos deuses, Roma não era uma teocracia, no sentido que atualmente se dá ao termo. Na teocracia a religião incorpora o Estado enquanto em Roma o Estado incorporava a religião. Esta simbiose construiu e consolidou o civismo dos romanos, base de sua têmpera guerreira que demarcou o Ocidente na ponta do gládio e na batida das cáligas.Quando o poder e a riqueza corromperam esta simbiose, a República Sagrada desabou.
O triunfo do Império continha em si o gérmen de sua própria decadência.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pensamento ocasional

Somente em Deus encontramos um ponto de vista do qual todas as vidas são coerentes, pois do ponto de vista de cada vida humana, todas as demais vidas são absurdas de algum modo.