quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Madeira Mamoré e a Ira de Tupã, dos "Diários de um Índio Viajante III"

Por Acauan Guajajara

1. A Obra do Homem


Falando aos construtores, destaco o significado grandioso de sua obra. Quando chegaram, a Floresta e o Rio imperavam sob aquele Sol. Confrontados por nossa determinação e nossa Ciência, a Floresta infinita recua e o poderoso Rio nos obedece. As terríveis forças da natureza se submetem ao poder de nossa vontade.

Tupã ouviu...

2. O Sol

Desde minha chegada minhas movimentações tem sido de um local refrigerado para outro, meios de translado inclusos. As exposições diretas ao Sol equatorial são muito breves, porém suficientes para me fazer entender como os vampiros se sentem. Boto a cara sob o Sol do meio dia e queimo como Cristopher Lee ao invés de brilhar como Robert Pattinson. Só arrisco uma maior exposição ao final da tarde, como Frank Langella.

n.A. (nota do Acauan) 1: Quem não entendeu a referência a Frank Langella pesquise "Drácula – 1979".

n.A. 2: Quem não entendeu a referência a Cristopher Lee não merece maiores explicações.

4. O Pezinho de Bebê

Morte inglória seria sair de São Paulo para ser atropelado em Rondônia, expectativa que vislumbro a cada travessia de rua. A administração local encontrou sua própria solução para o desrespeito à faixa de pedestres não as pintando, o que elimina o problema e economiza tinta. O trânsito de Porto Velho lembra em alguns aspectos o de Roma, noutros o de Calcutá, sem o charme romântico-cultural da Cidade Eterna e sem seja lá o que for que Calcutá tem de bom. Uma única motocicleta transportando a família inteira, mesmo que grande, é cena comum. Em uma destas avisto um delicado pezinho humano espremido entre o condutor e a mulher na garupa, que segurava o bebê com um braço enquanto tentava segurar a si própria com o outro. Isto em plena hora do rush, quando o trânsito local assume características quânticas de caos não determinístico. Que Monã proteja aquela criança, porque dos pais não dá prá esperar grande coisa.

5. A Força Nacional

Um bando de brucutus de farda foi instalado na obra, para garantir a segurança após alguns tumultos. Por um azar danado também estão instalados no meu hotel. O café da manhã tropical seria bem mais agradável se o cara na minha frente na fila do bufê não mantivesse a submetralhadora a tiracolo apontada pro meu queixo.

6. Um Suspiro de Civilização

Faço a caminhada de fim de tarde. Tão longa que seu upgrade seria uma peregrinação. Então, a civilização suspira. Chego à choperia. Concordo que associar choperia a "suspiro da civilização" é exagero piegas, mas passem a semana que passei aqui e depois me contem como chamariam. Além disto, não se trata de uma choperia qualquer. É uma microcervejaria gastronômica, ou seja, um restaurante que mantém a vista do cliente uma unidade industrial de fabricação de cerveja, que produz a bebida servida na casa. São Paulo teve uma destas certa época, daí o tratamento cerimonial dado a algo que se perdeu tão perto de casa e se reencontrou tão perto da selva.

7. As Três Marias

Três Marias é o apelido das Três Caixas d'Água, situadas na praça de mesmo nome. Sigo caminhando prá lá, depois que as rodadas de chope e comida não regional deram um descarrego nas tensões entre mim e Porto Velho.
As Três Caixas d'Água me despertam uma impressão dúbia.
Primeira e mais óbvia: De fato, são três caixas d'água. E daí?
Depois surge algum reconhecimento de que a praça tem personalidade, que as Caixas d'Água estão ali desde que a cidade era uma aldeia no meio da floresta, que por décadas foram o principal ponto de referência da região, além de abastecê-la de água, utilidade prática que a maioria dos monumentos não possui.
Resolvo incluir Porto Velho na minha série fotográfica "Noturnos Urbanos". A Igreja Matriz rende bons cliques. Prá poder dizer que naquela noite andei até o limite do que a cidade tinha de interessante, estico o percurso até as margens do Madeira, onde um Café oferece uma bela vista do rio.

8. Madeira Mamoré

Domingo. Volto à margem do Madeira para um típico programa de turista. Passeio de barco no rio, visita ao museu a céu aberto da Estrada de Ferro Madeira Mamoré e compra de artesanato indígena.
Aliás, um dos poucos lugares turísticos em que o artesanato indígena é vendido por Índios que são mais Índios que eu. Além de ter qualidade artística, outra coisa rara. Pergunto sobre a tribo deles. São karitianos. Sua língua ancestral foi preservada. Tem sonoridade algo parecida com o idioma klingon, o que confere autenticidade aos produtos vendidos.

9. Um Oficial e Cavalheiro

Volto ao Café onde conheço um tenente da engenharia do Exército Brasileiro, afastado do serviço ativo por conta de um acidente que o incapacitou. Seus modos em público incluíam chamar a garçonete com assobios altos, passar cantadas vulgares em qualquer mulher bonita que lhe cruzasse a linha de visão e insistir com cantadas mais vulgares depois de rechaçado. Um autodidata no quesito, já que não ensinam estas coisas nas Agulhas Negras.

10. A Fúria de Tupã

Como disse no começo, Tupã ouviu meu comentário sobre termos submetido as forças da natureza.
E Não gostou.
Quando Tupã não gosta de alguma coisa, demonstra isto de modo nada sutil, mas muito eficiente e logo enfrento minha primeira tempestade tropical.
Curti adoidado. Não era isto que Tupã tinha em mente quando enviou o toró, o que o motiva a radicalizar o discurso. O vento arranca parte do tronco de uma árvore a poucos metros de mim e o lança sobre um coqueiro, bem ao lado da mesa em que eu estava antes da chuva. Continuo assistindo a cena como um espetáculo, mas entendo o recado de Tupã e não me arrisco a irritá-lo mais.
O rio, a floresta e o resto do mundo desaparecem atrás de uma cortina branca de água e ressurgem em um gran finale, surpreendentemente anunciado por nosso folclórico oficial da engenharia "- veja, nossa bandeira, motivo de orgulho para todos nós". Desfraldada pelos últimos ventos da tempestade, a Bandeira do Brasil tremulava altiva, reduzindo a Floresta, o Rio e a Obra do Homem a pano de fundo de sua presença.




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Três Caixas d'Agua - de "Os Diários de um Índio Viajante II"

Por Acauan Guajajara


1. Dizem que todo lugar tem seu cheiro característico, perceptível pelo visitante, mas não pelos nativos.  O primeiro cheiro que sinto ao desembarcar de madrugada no aeroporto de Porto Velho, capital de Rondônia, é o cheiro de fumaça. Não sei se Rondônia abriga uma suinocultura expressiva.  Se abrigar, deve ser o único lugar do mundo em que o porco inteiro tem gosto de bacon.

2. Naquela manhã sigo para meu destino. O sol nascente, a floresta tropical e o rio amazônico disputam a supremacia em um cenário poderoso e deslumbrante. Mas quem domina a paisagem é uma obra feita pelo Homem.

3. No fim do dia tenho uma visão em escala de como seria um inverno nuclear.  A fumaça que me deu boas vindas agora encobre o Sol, antecipa o poente e joga uma cortina cinzenta sobre o horizonte que no amanhecer emoldurava uma visão épica. A Obra do Homem tem seus matizes.

4. Estou hospedado bem perto do centro da cidade. O que não quer dizer nada, pois o entorno digamos, espartano, sugere que o restaurante mais próximo fica em São Paulo.  Pergunto aos nativos sobre um lugar para comer.  Me indicam uma lanchonete a alguns quarteirões.  Vou lá.  As impressões combinadas do estabelecimento e local me sugerem a possibilidade de  Wyatt Earp ter feito um lanchinho ali antes de seguir para Ok Corral. O paradoxo espaço-temporal me intriga e resolvo experimentar.

5. Me arrependo.

6. A tal lanchonete fica em uma esquina. Inicio meu ritual contemplativo de observar o comportamento humano enquanto tomo cerveja. Esquinas sempre contam algo sobre a personalidade de um lugar.  Menos esta, que deve ser a esquina mais chata do mundo.

7.  Sei lá porque os habitantes desta cidade de clima tropical superúmido parecem adorar sopa quente.  Em qualquer lugar que sirva comida abundam as terrinas cheias sendo esvaziadas. Uma das sopas mais populares recebe o sugestivo nome de Caldo de Pinto. Deve ser algum tipo de canja, mas não me senti motivado a perguntar.

8. Açaí, xarope de guaraná, castanha de caju, leite, ovo de codorna, amendoim, guaraná em pó, miratã, catuaba, mel e limão. Bata tudo isto junto no liquidificador e terá um Ricardão, nome da receita de açaí mais pedida em uma casa especializada na cidade.  Não acredito que alguém possa comer algo que leva ovo de codorna liquefeito e confirmo com a atendente a popularidade da fórmula.  Segundo ela, os clientes garantem que o efeito dura três dias, ao fim dos quais retornam para nova dose. Desnecessário explicitar qual o efeito pretendido de um troço que além dos ovinhos leva amendoim, guaraná e catuaba.  Não sei o que é o tal miratã, mas se é ingrediente do Ricardão, opto pela ignorância.

9. Não identifico um sotaque característico nos nativos.

10. No final de semana devo visitar as Três Caixas d'Água, o principal ponto turístico de Porto Velho.  Inspirador.






quinta-feira, 17 de maio de 2012

Tipos Cariocas - de Os Diários de um Índio Viajante



Por Acauan Guajajara

1. Ascensoristas

A última vez que vi um ascensorista em São Paulo ele usava calças boca de sino e estava trajado na última moda.
Ao reencontrar no Rio espécimes vivos desta profissão presumidamente extinta tive impulsos de fotografar e encaminhar a descoberta aos museus antropológicos.

Entro no elevador de um prédio moderno que abriga um Centro de Convenções com vista para a Baía.
Uma senhora uniformizada posicionada no canto deixa claro que não devo selecionar meu andar apertando o botão com seu respectivo número. Preciso cumprir o protocolo de cumprimentar, solicitar, agradecer e despedir. Seria mais fácil e rápido apertar o botão.
A cena se repete algumas vezes.
Na última, sou o único passageiro.  De repente o silêncio protocolar entre a solicitação e o agradecimento é rompido quando a ascensorista começa a entoar entusiasmadamente um hino evangélico em alto e não tão bom som.
O trajeto vertical de dezoito andares se torna terrivelmente longo.
Cogito se o recital Gospel foi motivado por intervenção do Espírito Santo ou se porque aparento apreciar este tipo de espetáculo.  Espero que tenha sido por intervenção do Espírito Santo.

Em um Hotel do Centro do Rio que viveu seus tempos de glória em outra era, o ascensorista ostentando um modelo de uniforme dos anos trinta comanda um elevador aparentemente fabricado décadas antes.

A cena sugere um paradoxo temporal.

Visto por um aspecto o ascensorista e seus botões brilhantes conduzem um equipamento acionado por alavanca e cujas portas e grade são abertas e fechadas manualmente.  E cada vez que ele abria a porta eu ficava na expectativa se Johnny Alf ou Dick Farney entrariam por ela.


Visto por outro, a alavanca de comando, os ruídos do sistema mecânico e as luzes dos andares piscando através da grade lembravam o turbolift da USS Enterprise.

2. Suburbanos

A população do Rio se divide em quatro nações: Zona Sul, Zona Norte, Morros e Subúrbio. Dizem que existe uma Zona Oeste, mas acredito que seja lenda urbana
As nações falam o mesmo idioma com diferentes dialetos e sotaques, distinguindo-se uma das outras pela localização geográfica e comportamento.
O território neutro é a praia, que as quatro nações dividem democraticamente, com variados graus de apreciação desta democracia.
Fora da areia vivem um tipo de Paz Armada na qual as quatro nações se hostilizam entre si e o único consenso é que as populações da Zona Sul, Zona Norte e Morros não gostam dos suburbanos.
Tentei ouvir a versão de um suburbano, mas no Rio ninguém admite sê-lo.
Voltando de Bonsucesso (um lugar que deveria ser uma lenda urbana, mas infelizmente não é) o taxista me tira uma dúvida histórica sobre quem seriam e onde viveriam os tais suburbanos.  Explicou alguma coisa a ver com as linhas de trens.
Não sei se entendi bem como os trilhos definem um padrão sócio-cultural que sucinta tanta rejeição, mas talvez certos aspectos do Rio sejam incompreensíveis para os paulistas.

3. O Garçom

Um tipo que Rio e São Paulo têm em comum é o Garçom à Moda Antiga.
O Garçom à Moda Antiga não é uma pessoa.  É uma instituição.
Esta nobre estirpe pode ser identificada pelo paletó branco com gravata borboleta, a postura impecavelmente ereta, a elegância dos movimentos e gestos e a cortesia hospitaleira.
Sou recebido e servido por um destes em um restaurante sem credenciais do Centro.
Comer fora de casa espeta nosso inconsciente coletivo e nos retorna àqueles medos tribais de que enquanto comemos estamos desatentos e indefesos perante sabe-se lá quais ameaças que nos espreitam da floresta ou pela vidraça. A fina arte do Garçom à Moda Antiga é a de nos fazer sentir em casa durante a refeição, acalmando nossos antigos instintos tribais, que no meu caso em particular nem são tão antigos assim.
Observo o Garçom que me atende enquanto leva um prato com uma refeição quente para o guardador de carros que marca ponto na rua sem saída onde fica o restaurante.  O homem que pede para olhar carros sob a chuva fina e fria da noite na esperança de receber trocados tem seu jantar grátis servido pelo Garçom à Moda Antiga com a mesma cortesia dirigida aos clientes pagantes, acompanhado de uma rápida conversa, atenciosa e amistosa.
Como disse, uma nobre estirpe.

4. Taxistas

Taxistas... Um deles foi o que me correlacionou suburbanos e trens.
Não lembro se antes ou depois de me contar que era graduado, pós-graduado, falava duas línguas e se sentia plenamente realizado – espiritual e financeiramente – sendo motorista de táxi.
Até aí tudo bem, seria uma parte da vida dele até interessante de se saber.
O problema é que no caminho ficamos retidos no congestionamento e ele me contou todas as partes restantes da vida dele.  Exagero meu.  Ele não falou sobre o período do zero aos três anos, do qual pouco se lembra.
Como não bastasse me pôr de posse de material suficiente para que eu escrevesse sua biografia autorizada, nos lentos e longos quilômetros que separam Bonsucesso (aquele) do hotel (o do elevador velho) meu condutor me ilumina com sua visão de mundo, o que incluiu teoria moral, teoria política, solução para os problemas brasileiros – todos -, análise autocrítica sobre os motoristas de táxi do Rio, entendendo-se por análise autocrítica uma explanação sobre os outros motoristas não serem tão honestos quanto ele próprio e..., claro, seus sucessos românticos e sexuais, que culminaram em uma narrativa sobre como conquistou uma linda prostituta tratando-a como se não o fosse.
Respondo com frases cientificamente escolhidas, cujo principal conteúdo é a sugestão subliminar e neurolinguística de que ele parasse de falar.
Nesta instrutiva viagem aprendi que Neurolinguística não serve prá porra nenhuma.

Outro taxista.
Vem me pegar no hotel.  Ainda traumatizado pela corrida veicular e verbal da noite anterior, eu o cumprimento e me preparo para acrescentar a vida e as brilhantes ideias dele ao arquivo da memória onde jazem as de seu colega.
Ele responde ao bom dia com um quase imperceptível aceno de cabeça.
Um inesperado e sepulcral silêncio nos acompanha por toda a viagem.
Dou uma rápida examinada no motorista, que se parece muito com o Sargento Garcia em dia de depressão profunda.
A certa altura a combinação de atitude misteriosa e aparência denunciante me faz temer que aquele fosse um falso taxista, que estaria me sequestrando com objetivo de me usar como escudo humano contra os Minutemen em sua tentativa de cruzar ilegalmente o Rio Grande rumo a El Paso.
Mas ele me deixa em Bonsucesso, tão sinistramente calado quanto me recebeu.  E depois deve ter seguido para a fronteira do México.

5. O Guardador de Carros

Aquele do restaurante sem credenciais onde trabalha o Garçom à Moda Antiga.
O sujeito é baixinho, de meia idade e passaria despercebido não fosse sua tintura de cabelo loiro-alaranjado anunciar sua presença de modo impossível de ignorar.

Ele vai e volta pela calçada em frente ao restaurante, mantendo uma expressão preocupada e um olhar vigilante sobre carros cujos donos estão sentados a poucos metros e podem enxergá-los pela vidraça.

Usa uma daquelas capas plásticas vendidas em estádios para se proteger da chuva – aquela fria e fina, que eu devo ter trazido de São Paulo para o Rio por algum engano.

Quando o Garçom lhe traz a comida o Guardador conta a ele sobre suas filhas.  Diz que estão muito bem de vida, que moram em casões e que ficava com vergonha diante delas.
O Garçom pergunta sobre a vergonha, com um tom de voz que não expressava censura ou julgamento.
A conversa é interrompida por um cliente de saída, que dá um dinheiro maior que o esperado ao Guardador, acompanhado de comentários lançados em tom de brincadeira sobre ele não merecer aquele dinheiro, seguidos de recomendações para que cortasse o cabelo, parasse de pintá-lo e arranjasse emprego.
Endosso a sugestão para que abandonasse aquela cor capilar.  As demais me pareceram grosseiramente desnecessárias. Percebo que a nota recebida custou mais caro ao Guardador do que o esforço para se fingir vigilante.

Fico sem saber se as filhas ricas eram reais ou uma daquelas fantasias que pessoas nesta condição acreditam que as farão ser vistas com algum respeito. Ou que caminhos da vida o levaram àquele beco.
Do meu ponto de vista, se parasse de chover a vida do Guardador já melhoraria.
Fiz minha parte voltando para São Paulo no dia seguinte.


  

sábado, 21 de abril de 2012

Metafísica Básica II - A Consciência



Por Acauan Guajajara


A Consciência humana perante o infinito é uma questão metafísica básica porque a consciência percebe que está contida na realidade tanto quanto percebe que a realidade está contida nela.

Toda percepção humana da realidade existe na consciência individual e apenas nela.
Assim, a consciência individual ou autoconsciência pode conhecer apenas a si própria como existência objetiva, como ser. Todos os demais seres são reconhecidos como tais pela consciência individual como extensão do conhecimento que a consciência tem de si própria.

Em outras palavras, a consciência individual admite que os demais seres existam de modo idêntico à existência que reconhece em si própria.
A alternativa a esta admissão é o Solipsismo, a tese de que em última instância a consciência individual é o único ser real, dado ser impossível ter certeza de que todos os demais seres não são produto da imaginação desta consciência.

Como a consciência individual só conhece objetivamente a própria existência, a hipótese Solipsista não pode ser provada falsa, mas a probabilidade de que seja verdadeira pode ser reduzida na proporção em que os estímulos externos que percebemos são significativos per si. Quando tropeçamos em uma pedra, constatamos que a realidade da dor dá testemunho de que a pedra é real ou consideramos que a dor e a pedra são criações da consciência, que se torna coadjuvante impotente em sua própria criação.
Se verdadeira a hipótese Solipsista, cada um pode se imaginar como o único ser real, um Deus esquizofrênico que é prisioneiro no mundo que criou.

Admitido que a consciência individual seja parte da realidade e não o todo, restam as hipóteses de o conjunto da realidade ser finito ou infinito.

Se finito, em tese existe a possibilidade de que o conjunto da realidade possa ser conhecido pela experiência acumulada e transmitida pelas gerações humanas, caso nossa determinação, tempo, recursos e métodos dedicados ao objetivo forem suficientes. Uma realidade finita é explicável pela Ciência.

Se o conjunto da realidade é infinito, pode existir ou não um nexo que permita identificar na fração finita propriedades que se mantém infinitamente, como nas abstrações matemáticas da geometria e dos conjuntos numéricos. Uma realidade infinita com tal nexo é objeto de estudo da Metafísica.

Se o conjunto da realidade é infinito e desconexo, então não é compreensível pela consciência individual. As interações com a realidade se restringiriam a uma fração insignificante do todo e as conclusões tiradas pela experiência teriam significado apenas utilitário. Nesta realidade não existiriam referenciais absolutos. Os únicos referenciais seriam aqueles escolhidos arbitrariamente. Este é o mundo do relativismo filosófico.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Metafísica Básica I – O Infinito

Por Acauan Guajajara

A consciência humana perante o infinito é uma das questões metafísicas básicas.

Uma consciência individual que contempla o infinito se vê como um ponto central de onde irradiam infinitas retas em todas as direções nas quais a percepção consciente só alcança um limitado segmento de algumas das retas irradiadas, não de todas, resultando em uma alegoria geométrica na qual a consciência individual é um ponto no centro do sólido infinito da realidade.

Como um farol de alcance limitado, a consciência ilumina seu entorno próximo neste sólido, permanecendo escura a infinita vastidão restante.

Esta alegoria geométrica permite representar a construção do senso de realidade pela consciência individual, uma vez que a reta é uma entidade infinita da qual se pode conhecer as propriedades do todo a partir do conhecimento das propriedades da parte.

Sem esta idéia de continuum seria impossível qualquer concepção de realidade, pois qualquer parte finita de um todo infinito seria insignificante perante este todo e o conhecimento da parte em nada implicaria para o conhecimento do todo, como um farol que ilumina os recifes próximos, mas nada informa sobre a imensidão do oceano do qual alcança apenas as bordas.

Se não há o continuum, qualquer idéia formulada a partir de nossas percepções não teria qualquer significado absoluto. A própria idéia de realidade nada mais seria que o modo como imaginamos um todo além de nossa possibilidade de perscrutar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Aquiles e Jesus - Parte II

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 12/11/2006 às 14:21

Enquanto na narrativa mítica de Aquiles o mais poderoso dos homens está inevitavelmente destinado a ser vencido pela morte, na de Jesus de Nazaré a morte é vencida por um Deus que, em forma humana, renunciou a todo poder.

Aquiles encontra uma morte indesejada que lhe priva do triunfo final de sua maior luta, Tróia.
Jesus de Nazaré se submete voluntariamente aos seus inimigos para sofrer a morte em meio à tortura e humilhação.

A intersecção da queda do herói, da glória para o vazio, com a ascensão do homem-Deus, da imolação para a redenção, se dá no momento da morte, quando ambos se igualam em sua humanidade, o que lhes resta diante daquilo que os desprovê de tudo o mais.

Na iminência da morte, tanto o guerreiro indestrutível quanto o Cordeiro de Deus se sentem abandonados.
O primeiro por sua invulnerabilidade e o segundo pela presença divina.

É neste momento de semelhança entre as duas mortes míticas que se definem suas diferenças complementares.

Quando Jesus de Nazaré morre, rasga-se o véu do Templo, expressão usada em Mateus para simbolizar que o mistério inacessível foi revelado.

Tal mistério era a causa da frustração de Aquiles que, como mortal, não podia entender o Hades, que tentava interpretar a partir de sua própria realidade, uma realidade que já não lhe existia mais.

Só os deuses, de sua condição transcendente, eram capazes de compreender a mortalidade, mas como deuses eram incapazes de revelar um mistério que para eles não existia.

O véu do Templo se rasga quando a morte é penetrada por um ser que condensa em si a finitude humana e a transcendência divina.
Este feito não poderia ser realizado por um herói como Aquiles e nem mesmo por um semi-deus como Heracles.
O véu do templo só poderia ser rasgado por quem fosse ao mesmo tempo totalmente humano e totalmente divino, uma concepção inexistente no mito grego que é fundamental no mito cristão.

Só que o mito cristão não se encerra quando o véu do Templo é rasgado.
Ele se projeta para o futuro profético do segundo advento, quando Jesus retornará em glória e majestade.

Como um herói triunfante.

Como Aquiles.

Aquiles e Jesus - Parte I

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 11 de julho de 2006, às 23:12

Todas as civilizações e culturas se ergueram sobre um conjunto de mitos fundadores que estabeleceram as percepções simbólicas da realidade, a partir das quais grupamentos de comunidades humanas desenvolveram identidade, valores e objetivos comuns.

Os significados míticos associados à morte, extraídos daquelas percepções, buscavam um sentido para a finitude humana que, paradoxalmente, só era encontrado na negação desta finitude.

Neste contexto, as duas narrativas míticas que lançaram as raízes da civilização ocidental, a Ilíada de Homero e a Bíblia judaico-cristã, apresentam visões opostas e complementares sobre os significados da morte e, por extensão, sobre os significados da vida humana, a partir da morte de dois de seus respectivos protagonistas, Aquiles e Jesus de Nazaré.

Aquiles foi o herói fundamental.
O guerreiro indestrutível, de imaculado valor pessoal, inspiração e modelo para todo um povo aos olhos do qual parecia predestinado ao eterno triunfo.

Com tudo isto, o filho de Peleu era mortal, atributo que definia sua verdadeira, e derradeira, predestinação.
Aquiles tombou pelo arco de Paris, pela fúria de Apolo e por sua única fraqueza, o calcanhar não imerso nas águas do rio Estige.

A morte de Aquiles é puramente trágica.
É o fim dos triunfos.
O maior dos guerreiros se vê privado da morte gloriosa em combate ao ser abatido a distância pelo inimigo de tocaia.

O significado mítico da morte de Aquiles é resumido pelo próprio, que, evocado por Ulisses, lamenta sua estada no Hades.
Quando o rei de Ítaca declara ao companheiro que ele merece ser aclamado príncipe entre os que tombaram, Aquiles retruca que preferia ser escravo entre os vivos que nobre entre os mortos.

O sofrimento de Aquiles não provém de tormentos externos, como no inferno cristão, mas da interrupção brusca e irrevogável de tudo que fazia dele o que era.
Aquiles, na morte, contempla para sempre seu próprio esvaziamento como ser, enfrentando a dualidade dramática de ser testemunha de seu próprio inexistir, uma morte sem o alívio anestésico da inconsciência.

Sua morte traduz a certeza trágica de que todas as vitórias humanas apenas anunciam a derrota final, que anulará todo triunfo que a precedeu.

Só que esta certeza não é absoluta.
Coube a Ulisses confrontá-la. Primeiro ao restaurar o ânimo de Aquiles relatando os grandes feitos de seu filho Neoptólemo e, em outro momento da narrativa, ao recusar a oferta de imortalidade e juventude eterna feita pela ninfa Calipso, em troca da permanência dele junto a ela.
Ulisses escolhe voltar para seu reino, para sua casa e para sua esposa.

Se o vazio dos mortos pode ser preenchido pelas notícias do sucesso de um filho e se o que preenche nossas vidas finitas – amor, família, lar - vale mais para nós que uma existência imortal, a certeza trágica traduzida na morte de Aquiles não é tão certa assim.

É no hiato desta dúvida que as mortes de Aquiles e de Jesus de Nazaré se aproximam.